Autor: Sandra Moura

  • Negacionismo científico continua no Brasil seis anos depois da pandemia, diz pesquisadora

    Negacionismo científico continua no Brasil seis anos depois da pandemia, diz pesquisadora

    Mesmo depois da chegada das vacinas, das mais de 700 mil mortes, do desespero de uma pandemia, o negacionismo científico ainda sobrevive no Brasil. A afirmação é de Bagnólia Araújo Costa, pesquisadora e professora associada do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e atual diretora-presidente da Agência UFPB de Inovação Tecnológica (Inova), ao comentar sobre a desinformação na área da saúde.

    Durante a pandemia, a professora Bagnólia precisou enfrentar adversidades e até censura.  Foi convidada para palestras em diversas universidades brasileiras onde tentava desmistificar o curandeirismo defendido pelo governo da época. Ela explicava didaticamente o mecanismo de ação de todos os medicamentos do kit-covid (ivermectina, hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina e nitazoxanida). “Explicava cientificamente o que eles fariam, tanto de ação quanto de efeito colateral”, relembra.

    Na Universidade Federal de Goiás (UFG), uma de suas aulas foi transmitida pelo canal do Youtube do Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas. A gravação foi retirada da rede social sem explicação nenhuma. “Não falei nada demais, somente expliquei, contrariei a onda negacionista que havia no Brasil”, recorda.  A pesquisadora revela que havia mais de três mil médicos negacionistas no País, que prescreviam medicamentos ineficazes.

    No Facebook, Bagnólia também teve uma postagem censurada. Nela, a pesquisadora explicava que a ivermectina, para chegar a uma concentração efetiva no sangue e ter algum efeito prático em um adulto de 70 kg, deveria ser administrada em uma dose altíssima, acima de 176 comprimidos, mas isso possivelmente levaria à falência dos rins. “Em três semanas eles suspenderam minha postagem. Mas, pelo menos o Facebook depois admitiu o erro. Pediram desculpas e republicaram o meu material. Mas o Instagram e o Youtube retiraram para sempre”.

    A estratégia do governo da época frente a pandemia foi catastrófica e suas consequências perduram até hoje. Um estudo publicado pela revista científica The Lancet  mostrou que a postura negacionista durante a crise sanitária custou 3,4 anos na expectativa de vida dos brasileiros, impulsionado por um aumento de 27,6% na mortalidade. A análise destaca como a politização da saúde pública teve consequências concretas e duradouras na demografia do país.

    Enquanto o vírus causador da Covid-19 se disseminava pelo país, o governo federal da época defendia a utilização de medicamento sem comprovação da eficácia. Como não havia ainda vacina, promoveu-se o chamado kit-covid como uma das ações para combater a doença. “Como não havia vacina em novembro de 2020, o governo autorizou, de maneira emergencial, o uso compassivo desses medicamentos”, relembra.

    Mas por que anos depois, mesmo com o avanço tecnológico das vacinas e um maior conhecimento sobre o vírus causador da pandemia, o negacionismo persiste? A explicação, segundo a pesquisadora, é pelo desconhecimento, falta de acesso ao saber científico pela sociedade, e por interesses econômicos e políticos. Somam-se a isso a onda de desinformação, crise de confiança nas instituições e o surgimento de inúmeras teorias da conspiração. “As pessoas acreditam mais em político, em blogueiros, em influencers. Então, é mais fácil a população atender ao apelo de um político, por exemplo, do que atender ao de um professor, de um cientista”, diz Bagnólia.

    Em todas as universidades brasileiras certamente haverá um acadêmico que ainda defenda a cloroquina, que ainda acredite que a Covid não passou de uma gripezinha, mesmo que tenham receio de defender suas posições abertamente. “Tem professor que não queria usar máscara. Temos professora de enfermagem aqui na universidade que quando saiu a vacina da Covid para crianças ela usou carro de som nas ruas para conclamar pais e mães a não vacinarem seus filhos”, revela Bagnólia. “Então não é uma questão de pouco estudo, não é a questão de analfabetismo, não é a questão de pouco acesso à informação”.

    Política e economia

    O uso político e econômico da pandemia foi um dos principais fatores para o crescimento e a manutenção do negacionismo no Brasil, na visão da enfermeira especialista em epidemiologia, Cristiani Moura Duarte. “O fator político-econômico foi preponderante. Havia urgência em dar uma resposta e tranquilizar a população para que esta rompesse o isolamento social e voltasse a trabalhar para movimentar a economia em colapso”, conta. 

    Para Cristiani, o governo americano e brasileiro, alinhados politicamente, contrariavam as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) porque as medidas mais eficazes de proteção pessoal e contenção da disseminação do vírus eram um desastre para a economia. “Estes fatores aceleraram a adoção de protocolos de uso de medicamentos, mesmo sem comprovação científica definitiva”, diz.

    O neurologista José Alberto Campos da Silva Júnior foi um dos defensores da cloroquina e ivermectina durante a pandemia de Covid. Mesmo sem clinicar há mais de 10 anos, chegou a prescrever a parentes e amigos os medicamentos. “Não tínhamos muitas opções na época e usei os medicamentos e indiquei à minha família, acrescendo vitaminas de suplementação alimentar e anticoagulante. Por sorte não perdi nenhum paciente e não sei a que atribuir isso: à suplementação alimentar, hidratação máxima ou às medicações”, admite. “Agora a pandemia se foi e os estudos em grande escala foram muito bem realizados e publicados, e revelam que a cloroquina e ivermectina não são eficazes para a Covid”, disse o médico.

    Neurologista José Alberto
    Médico José Alberto Campos

    Consequências do uso de medicamentos são sentidas até hoje

    A cloroquina e hidroxicloroquina foram autorizadas de maneira emergencial antes da realização de testes sobre os efeitos para a Covid. “O paciente chegava em estado grave não havia nada para tratá-lo”, explica Bagnólia. Em junho de 2020 os resultados foram publicados. Feitos em seres humanos, mostraram que a hidroxicloroquina ou cloroquina eram ineficazes, tanto para prevenir quanto para tratar o paciente já cometido do vírus Sars COV 2. 

    O efeito colateral mais grave da hidroxicloroquina vem do fato de que essa substância não age só no alvo parasita. “Age também no nosso coração”, explica Bagnólia. No exame de eletrocardiograma, por exemplo, há uma faixa chamada intervalo QT. E a hidroxicloroquina consegue se ligar no miocárdio e prolongar esse QT, causando arritmia cardíaca que pode matar subitamente, explica a pesquisadora.

    “Chama-se síndrome do QT Longo que pode evoluir para uma arritmia, que é fatal. Esse é o grande problema do uso indevido da hidroxicloroquina”, garante Bagnólia. Ela lembra que as notícias de morte súbita posteriores à pandemia seria pelo uso indevido da hidroxicloroquina, associada ao uso de azitromicina.

    O antibiótico azitromicina também fazia parte do kit-covid. É um antiparasitário, um antimalárico, mas também prolonga o intervalo do QT Longo. “Nas fake news negacionistas da ciência ficam associando que muitas pessoas estão morrendo subitamente de ataque cardíaco  por conta da vacina, mas não existe nenhum estudo mostrando causalidade entre uso de vacina e risco de ter ataque cardíaco”, garante Bagnólia.

    Com a ivermectina, segundo a pesquisadora, o problema é que ela foi prescrita pelas redes sociais, nos grupos de WhatsApp de família. “A ciência diz que, em estudos in vitro, em laboratório, a ivermectina foi capaz de inibir a replicação do vírus SARS-CoV-2, porém as concentrações que foram usadas para fazer isso, se nós fossemos fazer a transposição de escala para dar para um adulto de até 70 kg, teria que tomar 176 comprimentos de uma única vez, e isso é impossível”. Se por acaso isso viesse a acontecer, haveria falência do fígado e dos rins.

    Apuração e entrevistas: Deborah Nascimento, Giovanna Consoni, Lara Duarte, Luísa Carvalho, Milena Simplício e Nina Petit.

    Redação: Luís Fernando Assunção

    Fotografias: Deborah Nascimento e Arquivo pessoal.

  • Anvisa determina retirada de detergente e outros produtos da marca Ypê

    Anvisa determina retirada de detergente e outros produtos da marca Ypê

    A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, nesta quinta-feira (7/5), o recolhimento de produtos lava-louças (detergente), sabão líquido para roupas e desinfetante da marca Ypê, de todos os lotes com numeração final 1. Os itens foram fabricados pela empresa Química Amparo, na unidade de Amparo (SP).  Supermercados de João Pessoa já iniciaram o recolhimento dos produtos para posterior devolução aos fornecedores. A medida inclui ainda a suspensão da fabricação, a comercialização, a distribuição e o uso dos produtos. 

    No Supermercado BeMais do bairro Tambaú, a diretiva da Anvisa foi informada por volta das 11 horas de quinta-feira. Imediatamente, os produtos foram recolhidos das prateleiras, já que a maioria pertencia ao lote 1 da fabricante. Segundo o gerente da loja, Venâncio Nobre Santos, a orientação é de que todos os produtos listados sejam retirados das prateleiras para averiguação e posterior devolução ao fabricante. A indicação do lote aparece impressa na embalagem, logo abaixo da data de validade.

    Já no Supermercado Menor Preço do bairro Manaíra, aparentemente os produtos não estão contidos no lote 1 da fabricante. Entretanto, o gerente da loja, Rildo Roberto, garantiu que todos os frascos serão identificados e verificados os seus respectivos lotes. “Vamos proceder a verificação e, se for caso, retirar os produtos proibidos da venda ao consumidor”, explicou.

    A decisão da Anvisa foi tomada a partir de avaliação técnica de risco sanitário, conduzida pelo órgão em articulação com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), após inspeção conjunta realizada com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) e a Vigilância Sanitária de Amparo (Visa-Amparo) na última semana. 

    Durante a inspeção, foram constatados descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo, o que inclui falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade. Os problemas identificados comprometem o atendimento aos requisitos essenciais de Boas Práticas de Fabricação (BPF) de saneantes e indicam risco à segurança sanitária dos produtos, com possibilidade de ocorrência de contaminação microbiológica (presença indesejada de microrganismos patogênicos). 

    A Ypê já era alvo da Anvisa desde novembro do ano passado quando foi detectada a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em três variedades de sabão de lavar roupas líquido. Esse micro-organismo pode afetar pessoas com problemas de baixa imunidade. É uma bactéria muito comum em casos de infecção hospitalar, afetando sobretudo o pulmão, particularmente em pacientes com fibrose cística.

    Orientação aos consumidores 

    De acordo com a Anvisa, quem tem em casa lotes dos produtos especificados na Resolução 1.834/2026 devem suspender imediatamente o uso e entrar em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da empresa para informações sobre o procedimento de recolhimento. 

    As vigilâncias sanitárias estaduais e municipais devem intensificar o monitoramento do mercado e adotar as medidas necessárias para evitar a circulação dos lotes envolvidos, em articulação com as ações coordenadas do SNVS. 

    O Procon de João Pessoa definiu o caso como de “saúde pública” e salientou a importância da divulgação dessa proibição. De acordo com o advogado do órgão, Luiz Antônio, os consumidores têm o direito de devolver o produto comprado ao supermercado e exigir o dinheiro de volta, desde que tenham a nota fiscal da compra. “O recolhimento do produto será obrigatório por parte dos supermercados e é um direito do consumidor ter o seu dinheiro devolvido”, disse.

    Como age a bactéria

    Pseudomonas aeruginosa (também conhecida como Pseudomonas pyocyanea) é uma bactéria gram-negativa, baciliforme (característica morfotintorial) e aeróbia. Seu ambiente de origem é o solo, mas é capaz de viver mesmo em ambientes hostis. Desenvolve-se com facilidade em ambientes úmidos, mesmo com carência nutricional.

    É um patogênico oportunista, ou seja, que raramente causa doenças em um sistema imunológico saudável, mas explora eventuais fraquezas do organismo para estabelecer um quadro de infecção. Esta característica, associada à sua resistência natural a um grande número de antibióticos e antissépticos, a torna uma importante causa de infecções hospitalares.

    Patogênico de indivíduos com sistema imunológico comprometido, a P. aeruginosa normalmente infecta o aparelho respiratório, aparelho urinário, queimaduras, e também causa outras infecções sanguíneas. Em raras circunstâncias pode causar pneumonia por contágio entre humanos. É uma causa comum de infecções no ouvido (otite externa), de queimaduras e é frequente colonizador de equipamentos médicos. Se a infecção ocorrer em áreas vitais, ela pode ser fatal.

    Produtos 

    A íntegra da Resolução 1.834/2026 com a relação dos produtos e lotes pode ser consultada na edição do Diário Oficial da União (DOU) desta quinta-feira (7/5). 

    Somente os lotes que terminam com o número 1, dos produtos abaixo estão afetados. 

    ·        lava louças ypê clear care   

    ·       lava louças com enzimas ativas ypê   

    ·       lava louças ypê   

    ·       lava louças ypê clear care   

    ·       lava louças ypê toque suave   

    ·       lava-louças concentrado ypê green  

    ·       lava-louças ypê clear  

    ·       lava-louças ypê green  

    ·       lava roupas líquido tixan ypê combate mau odor  

    ·       lava roupas líquido  

    ·       tixan ypê cuida das roupas  

    ·       lava roupas líquido tixan ypê antibac  

    ·       lava roupas líquido tixan ypê coco e baunilha  

    ·       lava roupas líquido tixan ypê green  

    ·       lava roupas líquido ypê express   

    ·       lava roupas líquido ypê power act  

    ·       lava roupas líquido ypê premium  

    ·       lava roupas tixan maciez   

    ·       lava roupas tixan primavera   

    ·       desinfetante bak ypê  

    ·       desinfetante de uso geral atol  

    ·       desinfetante perfumado atol   

    ·       desinfetante pinho ype   

    ·       lava roupas tixan power act  

    Crédito: Luis Fernando Assunção

  • Alumia checou: vacina tríplice viral não causa autismo

    Alumia checou: vacina tríplice viral não causa autismo

    Uma notícia compartilhada nas redes sociais afirma que a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e varíola) estaria associada ao autismo. Isso gerou dúvidas na população sobre a segurança das vacinas para crianças. O Alumia efetuou a checagem e certificou que a informação é falsa.

    O Alumia apurou e buscou esclarecimentos junto a diferentes entidades científicas de saúde. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que a relação entre as vacinas e o autismo não tem qualquer fundamento científico e que todas as vacinas registradas no Brasil demonstraram seus aspectos de segurança e eficácia para que possam ser utilizadas pela população. 

    A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) afirmou que as vacinas são seguras e eficazes na prevenção de doenças graves e não causam autismo. Já o Ministério da Saúde publicou uma notícia afirmando que as vacinas infantis não têm nada relacionado com o autismo.

    A vacinação infantil é muito importante e o Ministério de Saúde afirma que as vacinas são uma das principais medidas de saúde adotadas. A imunização tem ajudado a proteger as crianças contra diversas doenças, impedindo o seu agravamento. E a vacinação se torna mais importante com crianças porque elas ainda estão em fase de desenvolvimento do seu sistema imunológico, como no caso dos bebês. 

    Boato surgiu de estudo fraudulento

    A médica pediatra Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), explicou como surgiu a associação entre a vacina e o autismo. Segundo a especialista, o boato surgiu depois de um artigo na revista científica britânica The Lancet, associando a vacina tríplice viral com o autismo. “Esse estudo foi checado no mundo inteiro por várias agências regulatórias e o que se descobriu era que era fraudulento”, explicou. 

    O artigo foi publicado em 1998 na revista pelo ex-médico Andrew Wakefield. O trabalho analisava apenas 12 crianças e sugeria uma ligação entre a vacina tríplice viral e o desenvolvimento de autismo. Investigações posteriores revelaram que Wakefield manipulou dados dos pacientes e tinha conflitos de interesse financeiros não declarados.

    Médica pediatra Mônica Levi.
    Crédito: Silvia Oselka

    Em 2010, o Conselho Geral de Medicina do Reino Unido cassou o registro médico de Wakefield por má conduta profissional e desonestidade. Mônica ressaltou que a intenção do estudo era comercial, ou seja, vender uma vacina nova. “Foi um estudo fraudulento com interesses, sendo esse trabalho científico retirado dos anais da revista”, lembrou Mônica. Doze anos depois da publicação, em 2010, a revista The Lancet removeu o artigo do site.

    Apuração: Deborah Nascimento

  • Checagem do Alumia mostra que estudo  não comprova relação entre vacina contra a Covid e câncer

    Checagem do Alumia mostra que estudo não comprova relação entre vacina contra a Covid e câncer

    O Alumia recebeu o link de uma publicação que vinha ganhando espaço nas redes sociais, especialmente no Instagram. O post apresentava resultados atribuídos a um artigo científico intitulado “1-year risks of cancers associated with COVID-19 vaccination: a large population-based cohort study in South Korea”, assinado por Hong Jin Kim, Min-Ho Kim, Myeong Geun Choi e Eun Mi Chun.

    De acordo com a postagem, o estudo — produzido na Coreia do Sul e publicado em 2025 pela revista Boesmark — sugeria uma relação entre as vacinas de mRNA contra a Covid-19 e o aumento do risco de câncer. A divulgação do conteúdo levantou preocupações e despertou o interesse do Alumia em verificar a veracidade das informações.

    O artigo sul-coreano analisou dados de uma ampla base nacional de saúde, com registros coletados entre 2021 e 2023. Os autores relataram associações estatísticas entre a vacinação contra a Covid-19 e diagnósticos de alguns tipos de câncer dentro de um ano, como os de tireoide, pulmão, mama e colorretal

    O que é o mRNA?

     Segundo a Pfizer Brasil, o RNA mensageiro (mRNA) — descoberto na década de 1960 e estudado para uso em vacinas desde os anos 1970 — atua como um manual genético. Ele transporta do DNA as instruções necessárias para a produção de proteínas específicas.

    Ainda de acordo com a empresa, nas vacinas de mRNA, é utilizada uma versão sintética dessa molécula, que carrega a informação para que o corpo produza uma proteína inofensiva do agente infeccioso. Dessa forma, o sistema imunológico aprende a reconhecer o vírus e a desenvolver uma resposta de defesa eficaz, caso ocorra uma infecção real.

    O que dizem os especialistas 

    Diante da amplitude do tema e do alarmismo provocado nas redes sociais, o Alumia buscou esclarecimentos junto a diferentes entidades científicas de saúde.

    A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) afirmou, em resposta ao Alumia, que todas as vacinas contra a Covid-19 são seguras e eficazes, ressaltando que não há evidências científicas que estabeleçam qualquer relação entre os imunizantes e o surgimento de câncer.

    A entidade também destacou que o crescimento da carga global de câncer já era uma tendência prevista antes da pandemia. Segundo a Opas, esse aumento decorre de fatores como o envelhecimento populacional, o consumo de tabaco e álcool, a alimentação inadequada e a inatividade física — todos reconhecidos há décadas como principais determinantes da doença.

    A Opas alertou que, mantidas as tendências atuais, a projeção é de que o mundo registre mais de 35 milhões de novos casos de câncer até 2050, o que representa um aumento de 77% em relação às estimativas de 2022. Mas não com relação direta com a vacinação.

    Entrevista com especialista do Inca

    O Alumia conversou com o médico João Viola, coordenador de Pesquisa e Inovação do INCA (Instituto Nacional de Câncer), para esclarecer dúvidas sobre o estudo sul-coreano e a segurança das vacinas de mRNA.

    Alumia: O estudo sul-coreano é confiável e alinhado com o consenso científico global sobre vacinas de mRNA?

    João Viola: Os dados de correlação apresentados não suportam a conclusão divulgada. Não há evidência científica sólida demonstrando associação entre vacinas contra a Covid-19 e maior incidência de câncer. O estudo não está alinhado com o consenso científico global.

    Alumia: É plausível biologicamente que vacinas de mRNA causem câncer detectável em um período tão curto?

    João Viola: Não há evidências que sustentem essa associação. A alegação não tem base científica robusta e não é compatível com o mecanismo de ação das vacinas.

    Alumia: Se houver correlação nos dados, poderia ser um viés de detecção em vez de causalidade?

    João Viola: Os dados não suportam conclusões causais e a correlação pode estar relacionada a vieses de detecção, como atrasos nos exames durante a pandemia.

    Alumia: Há algum motivo para a alta notificação de casos de câncer após a vacinação?

    João Viola: Os dados observacionais são insuficientes para estabelecer causalidade. A alta pode refletir retorno aos exames e diagnósticos após a pandemia, e não a vacinação.

    Apuração e Texto: Deborah Nascimento e Caren Braga.