A preocupação com o acesso de crianças e adolescentes a conteúdos impróprios na Internet é realidade presente entre famílias residentes na Paraíba. A forma de lidar com a situação varia, contudo.
Mesmo em família de renda média (acima de sete salários mínimos e abaixo de vinte) e pais com pós-graduação, a vigilância digital é feita de diferentes maneiras. Enquanto uns utilizam ferramentas de controle parental, outros desconhecem completamente a existência de aplicativos com tal finalidade.
De outro lado, apesar da popularidade do caso Felca versus Hytalo, que trouxe à tona a exploração de crianças no ambiente digital, a maioria dos entrevistados admitiu não ter conhecimento sobre o Projeto de Lei 2628/2022, em vias de ser aprovado no Congresso para, justamente, ampliar o controle dos pais.
Camila, mãe de um menino de 10 anos, e Patrícia, que tem dois filhos, um de 6 e outro de 10 anos, ambas moradoras de João Pessoa, refletem realidades semelhantes na proteção digital de seus filhos.
Embora residam em bairros de classe média alta e tenham pais com formação acadêmica de nível superior, o controle parental das duas mulheres não é uniforme. Patrícia utiliza o Google Family. Camila bloqueia e-mail e usa aplicativos para monitorar acesso do filho.
Por sua vez, Paula, residente no bairro do Aeroclube, na capital, tem renda modesta, mãe com ensino superior incompleto e um filho de quatro anos que, por enquanto, não manuseia qualquer aparelho eletrônico conectado à Internet.
Paula e o pai da criança admitem que não saberiam como evitar um acesso desprotegido por parte do menino, se o garoto estivesse hoje com mais idade e tentasse entrar em sites como Xvídeo e Privace, que os pais admitem conhecer.
José, 34 anos, ensino médio completo e renda de um salário mínimo, do interior da Paraíba, tem filho de 13 anos em colégio público. O menino não possui celular, computador ou tablet próprio. Se tivesse, ainda assim esse pai também não saberia o que fazer para controlar o acesso do garoto a conteúdos impróprios para a idade.
O entrevistado afirmou, todavia, ter visto no noticiário de tevê que a Câmara dos Deputados aprovou lei de combate a crimes em ambientes virtuais (referia-se ao projeto de lei 2628/2022). Já em relação ao caso do influenciador paraibano Hytalo Santos, preso sob acusação de explorar imagens sensuais de crianças e adolescentes, disse ter apenas conhecimento superficial sobre o assunto.
Um casal com um filho de seis anos e outro com 19, residente em Santa Rita, também foi entrevistado. A mãe, 40 anos; o pai, 48. Ela possui ensino superior completo; ele, ensino médio incompleto. O filho mais novo estuda em colégio particular, o mais velho não estuda. A renda da família é de três salários mínimos. Ambos os filhos possuem acesso a computador e celular desde muito novos.
O casal de Santa Rita não usa nem sabe de programas que poderiam barrar o acesso do filho mais novo a fotografias e vídeos com imagens não recomendáveis para uma criança. Já ouviu falar ou viu algo sobre abusos na Internet, mas não sabe citar em qual plataforma, site ou perfil.
Outro casal com dois filhos, um menino de 5 anos e uma menina de 16, mora em Bayeux. A mãe, de 38 anos, e o pai, 36, ambos com ensino médio completo. O garoto e a adolescente estudam em colégio público. A renda da família é de dois salários mínimos. A filha mais velha possui celular e computador próprios; o mais novo, não.
Os pais não usam nem sabem como fazer para vetar pornografia nas telas domésticas. Ao mesmo tempo, o histórico de navegação de ambos na Internet não despertaria, em tese, a curiosidade dos filhos. O casal não tem conhecimento pessoal de portais ou plataformas de exibição de conteúdo adulto, muito menos de endereços na web com viés de exploração sexual infantil.
Uma pesquisa da Nielsen encomendada pelo Google em 2023 mostrou que apenas 17 por cento dos pais brasileiros conhecem e utilizam ferramentas adequadas de vigilância digital sobre os filhos menores. A Nielsen é uma empresa germânico-estadunidense de informação e dados.
O mesmo levantamento apurou algo ainda mais preocupante: a partir dos 10 anos de idade, quando as crianças intensificam presença na Internet, os mesmos pais afrouxam o controle sobre elas.
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Apuração e texto: Ana Sarah e Gabriel Fernandes
