Mesmo depois da chegada das vacinas, das mais de 700 mil mortes, do desespero de uma pandemia, o negacionismo científico ainda sobrevive no Brasil. A afirmação é de Bagnólia Araújo Costa, pesquisadora e professora associada do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e atual diretora-presidente da Agência UFPB de Inovação Tecnológica (Inova), ao comentar sobre a desinformação na área da saúde.
Durante a pandemia, a professora Bagnólia precisou enfrentar adversidades e até censura. Foi convidada para palestras em diversas universidades brasileiras onde tentava desmistificar o curandeirismo defendido pelo governo da época. Ela explicava didaticamente o mecanismo de ação de todos os medicamentos do kit-covid (ivermectina, hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina e nitazoxanida). “Explicava cientificamente o que eles fariam, tanto de ação quanto de efeito colateral”, relembra.
Na Universidade Federal de Goiás (UFG), uma de suas aulas foi transmitida pelo canal do Youtube do Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas. A gravação foi retirada da rede social sem explicação nenhuma. “Não falei nada demais, somente expliquei, contrariei a onda negacionista que havia no Brasil”, recorda. A pesquisadora revela que havia mais de três mil médicos negacionistas no País, que prescreviam medicamentos ineficazes.
No Facebook, Bagnólia também teve uma postagem censurada. Nela, a pesquisadora explicava que a ivermectina, para chegar a uma concentração efetiva no sangue e ter algum efeito prático em um adulto de 70 kg, deveria ser administrada em uma dose altíssima, acima de 176 comprimidos, mas isso possivelmente levaria à falência dos rins. “Em três semanas eles suspenderam minha postagem. Mas, pelo menos o Facebook depois admitiu o erro. Pediram desculpas e republicaram o meu material. Mas o Instagram e o Youtube retiraram para sempre”.
A estratégia do governo da época frente a pandemia foi catastrófica e suas consequências perduram até hoje. Um estudo publicado pela revista científica The Lancet mostrou que a postura negacionista durante a crise sanitária custou 3,4 anos na expectativa de vida dos brasileiros, impulsionado por um aumento de 27,6% na mortalidade. A análise destaca como a politização da saúde pública teve consequências concretas e duradouras na demografia do país.
Enquanto o vírus causador da Covid-19 se disseminava pelo país, o governo federal da época defendia a utilização de medicamento sem comprovação da eficácia. Como não havia ainda vacina, promoveu-se o chamado kit-covid como uma das ações para combater a doença. “Como não havia vacina em novembro de 2020, o governo autorizou, de maneira emergencial, o uso compassivo desses medicamentos”, relembra.
Mas por que anos depois, mesmo com o avanço tecnológico das vacinas e um maior conhecimento sobre o vírus causador da pandemia, o negacionismo persiste? A explicação, segundo a pesquisadora, é pelo desconhecimento, falta de acesso ao saber científico pela sociedade, e por interesses econômicos e políticos. Somam-se a isso a onda de desinformação, crise de confiança nas instituições e o surgimento de inúmeras teorias da conspiração. “As pessoas acreditam mais em político, em blogueiros, em influencers. Então, é mais fácil a população atender ao apelo de um político, por exemplo, do que atender ao de um professor, de um cientista”, diz Bagnólia.
Em todas as universidades brasileiras certamente haverá um acadêmico que ainda defenda a cloroquina, que ainda acredite que a Covid não passou de uma gripezinha, mesmo que tenham receio de defender suas posições abertamente. “Tem professor que não queria usar máscara. Temos professora de enfermagem aqui na universidade que quando saiu a vacina da Covid para crianças ela usou carro de som nas ruas para conclamar pais e mães a não vacinarem seus filhos”, revela Bagnólia. “Então não é uma questão de pouco estudo, não é a questão de analfabetismo, não é a questão de pouco acesso à informação”.
Política e economia
O uso político e econômico da pandemia foi um dos principais fatores para o crescimento e a manutenção do negacionismo no Brasil, na visão da enfermeira especialista em epidemiologia, Cristiani Moura Duarte. “O fator político-econômico foi preponderante. Havia urgência em dar uma resposta e tranquilizar a população para que esta rompesse o isolamento social e voltasse a trabalhar para movimentar a economia em colapso”, conta.
Para Cristiani, o governo americano e brasileiro, alinhados politicamente, contrariavam as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) porque as medidas mais eficazes de proteção pessoal e contenção da disseminação do vírus eram um desastre para a economia. “Estes fatores aceleraram a adoção de protocolos de uso de medicamentos, mesmo sem comprovação científica definitiva”, diz.
O neurologista José Alberto Campos da Silva Júnior foi um dos defensores da cloroquina e ivermectina durante a pandemia de Covid. Mesmo sem clinicar há mais de 10 anos, chegou a prescrever a parentes e amigos os medicamentos. “Não tínhamos muitas opções na época e usei os medicamentos e indiquei à minha família, acrescendo vitaminas de suplementação alimentar e anticoagulante. Por sorte não perdi nenhum paciente e não sei a que atribuir isso: à suplementação alimentar, hidratação máxima ou às medicações”, admite. “Agora a pandemia se foi e os estudos em grande escala foram muito bem realizados e publicados, e revelam que a cloroquina e ivermectina não são eficazes para a Covid”, disse o médico.

Consequências do uso de medicamentos são sentidas até hoje
A cloroquina e hidroxicloroquina foram autorizadas de maneira emergencial antes da realização de testes sobre os efeitos para a Covid. “O paciente chegava em estado grave não havia nada para tratá-lo”, explica Bagnólia. Em junho de 2020 os resultados foram publicados. Feitos em seres humanos, mostraram que a hidroxicloroquina ou cloroquina eram ineficazes, tanto para prevenir quanto para tratar o paciente já cometido do vírus Sars COV 2.
O efeito colateral mais grave da hidroxicloroquina vem do fato de que essa substância não age só no alvo parasita. “Age também no nosso coração”, explica Bagnólia. No exame de eletrocardiograma, por exemplo, há uma faixa chamada intervalo QT. E a hidroxicloroquina consegue se ligar no miocárdio e prolongar esse QT, causando arritmia cardíaca que pode matar subitamente, explica a pesquisadora.
“Chama-se síndrome do QT Longo que pode evoluir para uma arritmia, que é fatal. Esse é o grande problema do uso indevido da hidroxicloroquina”, garante Bagnólia. Ela lembra que as notícias de morte súbita posteriores à pandemia seria pelo uso indevido da hidroxicloroquina, associada ao uso de azitromicina.
O antibiótico azitromicina também fazia parte do kit-covid. É um antiparasitário, um antimalárico, mas também prolonga o intervalo do QT Longo. “Nas fake news negacionistas da ciência ficam associando que muitas pessoas estão morrendo subitamente de ataque cardíaco por conta da vacina, mas não existe nenhum estudo mostrando causalidade entre uso de vacina e risco de ter ataque cardíaco”, garante Bagnólia.
Com a ivermectina, segundo a pesquisadora, o problema é que ela foi prescrita pelas redes sociais, nos grupos de WhatsApp de família. “A ciência diz que, em estudos in vitro, em laboratório, a ivermectina foi capaz de inibir a replicação do vírus SARS-CoV-2, porém as concentrações que foram usadas para fazer isso, se nós fossemos fazer a transposição de escala para dar para um adulto de até 70 kg, teria que tomar 176 comprimentos de uma única vez, e isso é impossível”. Se por acaso isso viesse a acontecer, haveria falência do fígado e dos rins.
Apuração e entrevistas: Deborah Nascimento, Giovanna Consoni, Lara Duarte, Luísa Carvalho, Milena Simplício e Nina Petit.
Redação: Luís Fernando Assunção
Fotografias: Deborah Nascimento e Arquivo pessoal.














