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  • Negacionismo científico continua no Brasil seis anos depois da pandemia, diz pesquisadora

    Negacionismo científico continua no Brasil seis anos depois da pandemia, diz pesquisadora

    Mesmo depois da chegada das vacinas, das mais de 700 mil mortes, do desespero de uma pandemia, o negacionismo científico ainda sobrevive no Brasil. A afirmação é de Bagnólia Araújo Costa, pesquisadora e professora associada do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e atual diretora-presidente da Agência UFPB de Inovação Tecnológica (Inova), ao comentar sobre a desinformação na área da saúde.

    Durante a pandemia, a professora Bagnólia precisou enfrentar adversidades e até censura.  Foi convidada para palestras em diversas universidades brasileiras onde tentava desmistificar o curandeirismo defendido pelo governo da época. Ela explicava didaticamente o mecanismo de ação de todos os medicamentos do kit-covid (ivermectina, hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina e nitazoxanida). “Explicava cientificamente o que eles fariam, tanto de ação quanto de efeito colateral”, relembra.

    Na Universidade Federal de Goiás (UFG), uma de suas aulas foi transmitida pelo canal do Youtube do Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas. A gravação foi retirada da rede social sem explicação nenhuma. “Não falei nada demais, somente expliquei, contrariei a onda negacionista que havia no Brasil”, recorda.  A pesquisadora revela que havia mais de três mil médicos negacionistas no País, que prescreviam medicamentos ineficazes.

    No Facebook, Bagnólia também teve uma postagem censurada. Nela, a pesquisadora explicava que a ivermectina, para chegar a uma concentração efetiva no sangue e ter algum efeito prático em um adulto de 70 kg, deveria ser administrada em uma dose altíssima, acima de 176 comprimidos, mas isso possivelmente levaria à falência dos rins. “Em três semanas eles suspenderam minha postagem. Mas, pelo menos o Facebook depois admitiu o erro. Pediram desculpas e republicaram o meu material. Mas o Instagram e o Youtube retiraram para sempre”.

    A estratégia do governo da época frente a pandemia foi catastrófica e suas consequências perduram até hoje. Um estudo publicado pela revista científica The Lancet  mostrou que a postura negacionista durante a crise sanitária custou 3,4 anos na expectativa de vida dos brasileiros, impulsionado por um aumento de 27,6% na mortalidade. A análise destaca como a politização da saúde pública teve consequências concretas e duradouras na demografia do país.

    Enquanto o vírus causador da Covid-19 se disseminava pelo país, o governo federal da época defendia a utilização de medicamento sem comprovação da eficácia. Como não havia ainda vacina, promoveu-se o chamado kit-covid como uma das ações para combater a doença. “Como não havia vacina em novembro de 2020, o governo autorizou, de maneira emergencial, o uso compassivo desses medicamentos”, relembra.

    Mas por que anos depois, mesmo com o avanço tecnológico das vacinas e um maior conhecimento sobre o vírus causador da pandemia, o negacionismo persiste? A explicação, segundo a pesquisadora, é pelo desconhecimento, falta de acesso ao saber científico pela sociedade, e por interesses econômicos e políticos. Somam-se a isso a onda de desinformação, crise de confiança nas instituições e o surgimento de inúmeras teorias da conspiração. “As pessoas acreditam mais em político, em blogueiros, em influencers. Então, é mais fácil a população atender ao apelo de um político, por exemplo, do que atender ao de um professor, de um cientista”, diz Bagnólia.

    Em todas as universidades brasileiras certamente haverá um acadêmico que ainda defenda a cloroquina, que ainda acredite que a Covid não passou de uma gripezinha, mesmo que tenham receio de defender suas posições abertamente. “Tem professor que não queria usar máscara. Temos professora de enfermagem aqui na universidade que quando saiu a vacina da Covid para crianças ela usou carro de som nas ruas para conclamar pais e mães a não vacinarem seus filhos”, revela Bagnólia. “Então não é uma questão de pouco estudo, não é a questão de analfabetismo, não é a questão de pouco acesso à informação”.

    Política e economia

    O uso político e econômico da pandemia foi um dos principais fatores para o crescimento e a manutenção do negacionismo no Brasil, na visão da enfermeira especialista em epidemiologia, Cristiani Moura Duarte. “O fator político-econômico foi preponderante. Havia urgência em dar uma resposta e tranquilizar a população para que esta rompesse o isolamento social e voltasse a trabalhar para movimentar a economia em colapso”, conta. 

    Para Cristiani, o governo americano e brasileiro, alinhados politicamente, contrariavam as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) porque as medidas mais eficazes de proteção pessoal e contenção da disseminação do vírus eram um desastre para a economia. “Estes fatores aceleraram a adoção de protocolos de uso de medicamentos, mesmo sem comprovação científica definitiva”, diz.

    O neurologista José Alberto Campos da Silva Júnior foi um dos defensores da cloroquina e ivermectina durante a pandemia de Covid. Mesmo sem clinicar há mais de 10 anos, chegou a prescrever a parentes e amigos os medicamentos. “Não tínhamos muitas opções na época e usei os medicamentos e indiquei à minha família, acrescendo vitaminas de suplementação alimentar e anticoagulante. Por sorte não perdi nenhum paciente e não sei a que atribuir isso: à suplementação alimentar, hidratação máxima ou às medicações”, admite. “Agora a pandemia se foi e os estudos em grande escala foram muito bem realizados e publicados, e revelam que a cloroquina e ivermectina não são eficazes para a Covid”, disse o médico.

    Neurologista José Alberto
    Médico José Alberto Campos

    Consequências do uso de medicamentos são sentidas até hoje

    A cloroquina e hidroxicloroquina foram autorizadas de maneira emergencial antes da realização de testes sobre os efeitos para a Covid. “O paciente chegava em estado grave não havia nada para tratá-lo”, explica Bagnólia. Em junho de 2020 os resultados foram publicados. Feitos em seres humanos, mostraram que a hidroxicloroquina ou cloroquina eram ineficazes, tanto para prevenir quanto para tratar o paciente já cometido do vírus Sars COV 2. 

    O efeito colateral mais grave da hidroxicloroquina vem do fato de que essa substância não age só no alvo parasita. “Age também no nosso coração”, explica Bagnólia. No exame de eletrocardiograma, por exemplo, há uma faixa chamada intervalo QT. E a hidroxicloroquina consegue se ligar no miocárdio e prolongar esse QT, causando arritmia cardíaca que pode matar subitamente, explica a pesquisadora.

    “Chama-se síndrome do QT Longo que pode evoluir para uma arritmia, que é fatal. Esse é o grande problema do uso indevido da hidroxicloroquina”, garante Bagnólia. Ela lembra que as notícias de morte súbita posteriores à pandemia seria pelo uso indevido da hidroxicloroquina, associada ao uso de azitromicina.

    O antibiótico azitromicina também fazia parte do kit-covid. É um antiparasitário, um antimalárico, mas também prolonga o intervalo do QT Longo. “Nas fake news negacionistas da ciência ficam associando que muitas pessoas estão morrendo subitamente de ataque cardíaco  por conta da vacina, mas não existe nenhum estudo mostrando causalidade entre uso de vacina e risco de ter ataque cardíaco”, garante Bagnólia.

    Com a ivermectina, segundo a pesquisadora, o problema é que ela foi prescrita pelas redes sociais, nos grupos de WhatsApp de família. “A ciência diz que, em estudos in vitro, em laboratório, a ivermectina foi capaz de inibir a replicação do vírus SARS-CoV-2, porém as concentrações que foram usadas para fazer isso, se nós fossemos fazer a transposição de escala para dar para um adulto de até 70 kg, teria que tomar 176 comprimentos de uma única vez, e isso é impossível”. Se por acaso isso viesse a acontecer, haveria falência do fígado e dos rins.

    Apuração e entrevistas: Deborah Nascimento, Giovanna Consoni, Lara Duarte, Luísa Carvalho, Milena Simplício e Nina Petit.

    Redação: Luís Fernando Assunção

    Fotografias: Deborah Nascimento e Arquivo pessoal.

  • Anvisa determina retirada de detergente e outros produtos da marca Ypê

    Anvisa determina retirada de detergente e outros produtos da marca Ypê

    A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, nesta quinta-feira (7/5), o recolhimento de produtos lava-louças (detergente), sabão líquido para roupas e desinfetante da marca Ypê, de todos os lotes com numeração final 1. Os itens foram fabricados pela empresa Química Amparo, na unidade de Amparo (SP).  Supermercados de João Pessoa já iniciaram o recolhimento dos produtos para posterior devolução aos fornecedores. A medida inclui ainda a suspensão da fabricação, a comercialização, a distribuição e o uso dos produtos. 

    No Supermercado BeMais do bairro Tambaú, a diretiva da Anvisa foi informada por volta das 11 horas de quinta-feira. Imediatamente, os produtos foram recolhidos das prateleiras, já que a maioria pertencia ao lote 1 da fabricante. Segundo o gerente da loja, Venâncio Nobre Santos, a orientação é de que todos os produtos listados sejam retirados das prateleiras para averiguação e posterior devolução ao fabricante. A indicação do lote aparece impressa na embalagem, logo abaixo da data de validade.

    Já no Supermercado Menor Preço do bairro Manaíra, aparentemente os produtos não estão contidos no lote 1 da fabricante. Entretanto, o gerente da loja, Rildo Roberto, garantiu que todos os frascos serão identificados e verificados os seus respectivos lotes. “Vamos proceder a verificação e, se for caso, retirar os produtos proibidos da venda ao consumidor”, explicou.

    A decisão da Anvisa foi tomada a partir de avaliação técnica de risco sanitário, conduzida pelo órgão em articulação com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), após inspeção conjunta realizada com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) e a Vigilância Sanitária de Amparo (Visa-Amparo) na última semana. 

    Durante a inspeção, foram constatados descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo, o que inclui falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade. Os problemas identificados comprometem o atendimento aos requisitos essenciais de Boas Práticas de Fabricação (BPF) de saneantes e indicam risco à segurança sanitária dos produtos, com possibilidade de ocorrência de contaminação microbiológica (presença indesejada de microrganismos patogênicos). 

    A Ypê já era alvo da Anvisa desde novembro do ano passado quando foi detectada a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em três variedades de sabão de lavar roupas líquido. Esse micro-organismo pode afetar pessoas com problemas de baixa imunidade. É uma bactéria muito comum em casos de infecção hospitalar, afetando sobretudo o pulmão, particularmente em pacientes com fibrose cística.

    Orientação aos consumidores 

    De acordo com a Anvisa, quem tem em casa lotes dos produtos especificados na Resolução 1.834/2026 devem suspender imediatamente o uso e entrar em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da empresa para informações sobre o procedimento de recolhimento. 

    As vigilâncias sanitárias estaduais e municipais devem intensificar o monitoramento do mercado e adotar as medidas necessárias para evitar a circulação dos lotes envolvidos, em articulação com as ações coordenadas do SNVS. 

    O Procon de João Pessoa definiu o caso como de “saúde pública” e salientou a importância da divulgação dessa proibição. De acordo com o advogado do órgão, Luiz Antônio, os consumidores têm o direito de devolver o produto comprado ao supermercado e exigir o dinheiro de volta, desde que tenham a nota fiscal da compra. “O recolhimento do produto será obrigatório por parte dos supermercados e é um direito do consumidor ter o seu dinheiro devolvido”, disse.

    Como age a bactéria

    Pseudomonas aeruginosa (também conhecida como Pseudomonas pyocyanea) é uma bactéria gram-negativa, baciliforme (característica morfotintorial) e aeróbia. Seu ambiente de origem é o solo, mas é capaz de viver mesmo em ambientes hostis. Desenvolve-se com facilidade em ambientes úmidos, mesmo com carência nutricional.

    É um patogênico oportunista, ou seja, que raramente causa doenças em um sistema imunológico saudável, mas explora eventuais fraquezas do organismo para estabelecer um quadro de infecção. Esta característica, associada à sua resistência natural a um grande número de antibióticos e antissépticos, a torna uma importante causa de infecções hospitalares.

    Patogênico de indivíduos com sistema imunológico comprometido, a P. aeruginosa normalmente infecta o aparelho respiratório, aparelho urinário, queimaduras, e também causa outras infecções sanguíneas. Em raras circunstâncias pode causar pneumonia por contágio entre humanos. É uma causa comum de infecções no ouvido (otite externa), de queimaduras e é frequente colonizador de equipamentos médicos. Se a infecção ocorrer em áreas vitais, ela pode ser fatal.

    Produtos 

    A íntegra da Resolução 1.834/2026 com a relação dos produtos e lotes pode ser consultada na edição do Diário Oficial da União (DOU) desta quinta-feira (7/5). 

    Somente os lotes que terminam com o número 1, dos produtos abaixo estão afetados. 

    ·        lava louças ypê clear care   

    ·       lava louças com enzimas ativas ypê   

    ·       lava louças ypê   

    ·       lava louças ypê clear care   

    ·       lava louças ypê toque suave   

    ·       lava-louças concentrado ypê green  

    ·       lava-louças ypê clear  

    ·       lava-louças ypê green  

    ·       lava roupas líquido tixan ypê combate mau odor  

    ·       lava roupas líquido  

    ·       tixan ypê cuida das roupas  

    ·       lava roupas líquido tixan ypê antibac  

    ·       lava roupas líquido tixan ypê coco e baunilha  

    ·       lava roupas líquido tixan ypê green  

    ·       lava roupas líquido ypê express   

    ·       lava roupas líquido ypê power act  

    ·       lava roupas líquido ypê premium  

    ·       lava roupas tixan maciez   

    ·       lava roupas tixan primavera   

    ·       desinfetante bak ypê  

    ·       desinfetante de uso geral atol  

    ·       desinfetante perfumado atol   

    ·       desinfetante pinho ype   

    ·       lava roupas tixan power act  

    Crédito: Luis Fernando Assunção

  • Alumia checou: vacina tríplice viral não causa autismo

    Alumia checou: vacina tríplice viral não causa autismo

    Uma notícia compartilhada nas redes sociais afirma que a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e varíola) estaria associada ao autismo. Isso gerou dúvidas na população sobre a segurança das vacinas para crianças. O Alumia efetuou a checagem e certificou que a informação é falsa.

    O Alumia apurou e buscou esclarecimentos junto a diferentes entidades científicas de saúde. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que a relação entre as vacinas e o autismo não tem qualquer fundamento científico e que todas as vacinas registradas no Brasil demonstraram seus aspectos de segurança e eficácia para que possam ser utilizadas pela população. 

    A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) afirmou que as vacinas são seguras e eficazes na prevenção de doenças graves e não causam autismo. Já o Ministério da Saúde publicou uma notícia afirmando que as vacinas infantis não têm nada relacionado com o autismo.

    A vacinação infantil é muito importante e o Ministério de Saúde afirma que as vacinas são uma das principais medidas de saúde adotadas. A imunização tem ajudado a proteger as crianças contra diversas doenças, impedindo o seu agravamento. E a vacinação se torna mais importante com crianças porque elas ainda estão em fase de desenvolvimento do seu sistema imunológico, como no caso dos bebês. 

    Boato surgiu de estudo fraudulento

    A médica pediatra Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), explicou como surgiu a associação entre a vacina e o autismo. Segundo a especialista, o boato surgiu depois de um artigo na revista científica britânica The Lancet, associando a vacina tríplice viral com o autismo. “Esse estudo foi checado no mundo inteiro por várias agências regulatórias e o que se descobriu era que era fraudulento”, explicou. 

    O artigo foi publicado em 1998 na revista pelo ex-médico Andrew Wakefield. O trabalho analisava apenas 12 crianças e sugeria uma ligação entre a vacina tríplice viral e o desenvolvimento de autismo. Investigações posteriores revelaram que Wakefield manipulou dados dos pacientes e tinha conflitos de interesse financeiros não declarados.

    Médica pediatra Mônica Levi.
    Crédito: Silvia Oselka

    Em 2010, o Conselho Geral de Medicina do Reino Unido cassou o registro médico de Wakefield por má conduta profissional e desonestidade. Mônica ressaltou que a intenção do estudo era comercial, ou seja, vender uma vacina nova. “Foi um estudo fraudulento com interesses, sendo esse trabalho científico retirado dos anais da revista”, lembrou Mônica. Doze anos depois da publicação, em 2010, a revista The Lancet removeu o artigo do site.

    Apuração: Deborah Nascimento

  • Checagem do Alumia mostra que estudo  não comprova relação entre vacina contra a Covid e câncer

    Checagem do Alumia mostra que estudo não comprova relação entre vacina contra a Covid e câncer

    O Alumia recebeu o link de uma publicação que vinha ganhando espaço nas redes sociais, especialmente no Instagram. O post apresentava resultados atribuídos a um artigo científico intitulado “1-year risks of cancers associated with COVID-19 vaccination: a large population-based cohort study in South Korea”, assinado por Hong Jin Kim, Min-Ho Kim, Myeong Geun Choi e Eun Mi Chun.

    De acordo com a postagem, o estudo — produzido na Coreia do Sul e publicado em 2025 pela revista Boesmark — sugeria uma relação entre as vacinas de mRNA contra a Covid-19 e o aumento do risco de câncer. A divulgação do conteúdo levantou preocupações e despertou o interesse do Alumia em verificar a veracidade das informações.

    O artigo sul-coreano analisou dados de uma ampla base nacional de saúde, com registros coletados entre 2021 e 2023. Os autores relataram associações estatísticas entre a vacinação contra a Covid-19 e diagnósticos de alguns tipos de câncer dentro de um ano, como os de tireoide, pulmão, mama e colorretal

    O que é o mRNA?

     Segundo a Pfizer Brasil, o RNA mensageiro (mRNA) — descoberto na década de 1960 e estudado para uso em vacinas desde os anos 1970 — atua como um manual genético. Ele transporta do DNA as instruções necessárias para a produção de proteínas específicas.

    Ainda de acordo com a empresa, nas vacinas de mRNA, é utilizada uma versão sintética dessa molécula, que carrega a informação para que o corpo produza uma proteína inofensiva do agente infeccioso. Dessa forma, o sistema imunológico aprende a reconhecer o vírus e a desenvolver uma resposta de defesa eficaz, caso ocorra uma infecção real.

    O que dizem os especialistas 

    Diante da amplitude do tema e do alarmismo provocado nas redes sociais, o Alumia buscou esclarecimentos junto a diferentes entidades científicas de saúde.

    A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) afirmou, em resposta ao Alumia, que todas as vacinas contra a Covid-19 são seguras e eficazes, ressaltando que não há evidências científicas que estabeleçam qualquer relação entre os imunizantes e o surgimento de câncer.

    A entidade também destacou que o crescimento da carga global de câncer já era uma tendência prevista antes da pandemia. Segundo a Opas, esse aumento decorre de fatores como o envelhecimento populacional, o consumo de tabaco e álcool, a alimentação inadequada e a inatividade física — todos reconhecidos há décadas como principais determinantes da doença.

    A Opas alertou que, mantidas as tendências atuais, a projeção é de que o mundo registre mais de 35 milhões de novos casos de câncer até 2050, o que representa um aumento de 77% em relação às estimativas de 2022. Mas não com relação direta com a vacinação.

    Entrevista com especialista do Inca

    O Alumia conversou com o médico João Viola, coordenador de Pesquisa e Inovação do INCA (Instituto Nacional de Câncer), para esclarecer dúvidas sobre o estudo sul-coreano e a segurança das vacinas de mRNA.

    Alumia: O estudo sul-coreano é confiável e alinhado com o consenso científico global sobre vacinas de mRNA?

    João Viola: Os dados de correlação apresentados não suportam a conclusão divulgada. Não há evidência científica sólida demonstrando associação entre vacinas contra a Covid-19 e maior incidência de câncer. O estudo não está alinhado com o consenso científico global.

    Alumia: É plausível biologicamente que vacinas de mRNA causem câncer detectável em um período tão curto?

    João Viola: Não há evidências que sustentem essa associação. A alegação não tem base científica robusta e não é compatível com o mecanismo de ação das vacinas.

    Alumia: Se houver correlação nos dados, poderia ser um viés de detecção em vez de causalidade?

    João Viola: Os dados não suportam conclusões causais e a correlação pode estar relacionada a vieses de detecção, como atrasos nos exames durante a pandemia.

    Alumia: Há algum motivo para a alta notificação de casos de câncer após a vacinação?

    João Viola: Os dados observacionais são insuficientes para estabelecer causalidade. A alta pode refletir retorno aos exames e diagnósticos após a pandemia, e não a vacinação.

    Apuração e Texto: Deborah Nascimento e Caren Braga.

  • Chacina ou tiroteio? Série de tv desconstrói versão policial sobre morte de cinco jovens

    Chacina ou tiroteio? Série de tv desconstrói versão policial sobre morte de cinco jovens

    Graças ao jornalismo investigativo da TV Cabo Branco exibido em abril deste ano na série ‘Eles tinham envolvimento…’, um laudo da perícia criminal do Estado, divulgado no dia 30 daquele mês, mostrou que podem ter sido vítimas de chacina – e não de um tiroteio com policiais militares – os cinco jovens mortos quase dois meses antes, em 15 de fevereiro, na Ponte dos Arcos (Vale do Gramame), na divisa entre os municípios de João Pessoa e do Conde.

    O documento dos peritos, ao qual a reportagem da emissora teve acesso, abalou a então inabalável versão oficial sobre os fatos. Com investigações ainda em andamento, autoridades como o governador do Estado, o secretário de Segurança e o Comandante-Geral da PM manifestavam-se convencidos de que os policiais envolvidos reagiram em legítima defesa em um confronto com quem teria dado o primeiro tiro, disparado de dentro de dois carros onde se conduziam três adolescentes e dois adultos.

    Apresentada pela repórter Ana Beatriz Rocha, da Rede Paraíba de Televisão, a série ‘Eles tinham envolvimento…’ revelou, com base no laudo pericial, que os policiais fizeram nada menos que 74 disparos contra um dos veículos e 18 contra o outro. “Todos os tiros partiram de fora para dentro dos carros, com exceção de apenas um disparo, efetuado de dentro para fora”, registrou o G1 Paraíba no mesmo dia 30 de abril, às 12h34, tendo como fonte o documento da perícia técnica. A matéria publicada pelo portal trouxe a assinatura da mesma jornalista que apresentou a série na tevê.

    Os 90 tiros que atingiram latarias, parabrisas e vítimas não foram contados no local onde teriam sido disparados. Os cartuchos vazios de bala não foram recolhidos pelos peritos, que só puderam ver os veículos tiroteados na ‘Cidade da Polícia’, para onde os carros foram removidos, contrariando normas da própria Polícia que determinam a preservação do que possa ser uma cena de crime. Do mesmo modo, corpos agonizantes ou já sem vida foram indevidamente transportados para o Hospital de Trauma da capital, onde foi constatada que as mortes decorreram de balaços na cabeça, entre outros ferimentos graves provocados por armas de fogo.

    Perderam a vida, durante a abordagem policial, Fábio Pereira da Silva Filho (26 anos), Emerson Almeida de Oliveira (25), Alexandre Bernardo de Brito (17), Cristiano Lucas (16) e Gabriel Cassiano de Sousa (17), este filho de Ana Gabriela, vítima de feminicídio ocorrido na manhã do 15 de fevereiro, no Conde. A morte da mulher foi atribuída a Gilmar Eloy Dionizio, preso dois dias depois. O suspeito seria alvo de uma vingança planejada pelos jovens e homens que se depararam com a blitz dos policiais do 5º Batalhão da PM, ainda segundo o relato policial.

    Durante a investigação, seis policiais prestaram depoimento. Um deles confirmou que todos os agentes atiraram, mas não soube dizer quantos disparos efetuou. Já uma familiar de uma das vítimas relatou à Polícia Civil que uma testemunha ocular viu um policial com o pé sobre o pescoço de Cristiano Lucas, que estava com o rosto no chão, fora do veículo (detalhe em página reproduzida abaixo). Constatações de peritos e informações colhidas em depoimentos de testemunhas e familiares dos mortos à Polícia Civil levaram o Ministério Público da Paraíba a pedir a prisão dos seis PMs envolvidos.

    Cinco deles foram presos em João Pessoa no dia 19 de agosto: soldado Mikhaelson Shankley Ferreira Maciel, sargento Marcos Alberto de Sá Monteiro, sargento Wellyson Luiz de Paula, sargento Kobosque Imperiano Pontes e o cabo Edvaldo Monteval Alves Marques. Um sexto membro da equipe da PM, o tenente Alex William de Lira Oliveira, teve sua prisão temporária convertida em preventiva porque teria fugido para os Estados Unidos.

    Menos de três semanas depois do recolhimento dos cinco PMs ao xadrez do 1º Batalhão da corporação, em João Pessoa, o advogado Luiz Pereira, defensor dos acusados, conseguiu da Justiça uma ordem de soltura. Mas os presos se recusaram a deixar a cadeia usando tornozeleira. Também se negaram a ajudar a reconstituir o que ocorreu na noite de 15 de fevereiro, um sábado. No dia 17 deste mês, a Justiça resolveu liberá-los, desobrigando-os do monitoramento e da volta à Ponte dos Arcos.

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    Apuração e texto: Gean Santos

  • Jornalismo declaratório domina o noticiário sobre a morte de seis jovens por PMs no Conde

    Jornalismo declaratório domina o noticiário sobre a morte de seis jovens por PMs no Conde

    A cobertura jornalística sobre a morte de cinco jovens em 15 de fevereiro deste ano, entre João Pessoa e Conde, expôs fragilidades na checagem de informações e reforçou o padrão de jornalismo declaratório no noticiário sobre o caso produzido por veículos de comunicação da Paraíba.

    Por jornalismo declaratório entenda-se aquele que resulta em notícia sem apuração alguma de quem a publica. Baseia-se tão somente no que afirmam as fontes. No caso da suposta Chacina do Conde, esse tipo de ‘jornalismo’ marca a quase totalidade do que foi publicado até aqui pela imprensa paraibana.

    Para chegar à constatação de que declarações de autoridades do Estado prevaleceram sobre informações que poderiam ser levantadas em investigação jornalística, o Alumia selecionou e avaliou matérias publicadas em diversos sites informativos que noticiaram a suposta chacina e seus desdobramentos.

    Neste segundo capítulo da série sobre erros e omissões de imprensa na cobertura de fatos violentos ou impactantes, foram selecionadas e analisadas matérias dos portais Polêmica Paraíba, Paraíba Online, do jornal A União e do site de Maurílio Júnior. Acompanhe os destaques, segundo o material coletado.

    MAURÍLIO JÚNIOR

    No dia 18 de agosto último, Maurílio Júnior publicou duas matérias sobre as mortes dos cinco jovens na Ponte dos Arcos. Ambas as publicações reproduzem informações e declarações oficiais. Uma do Ministério Público da Paraíba (MPPB); outra, do Comandante-Geral da Polícia Militar do Estado.

    A primeira postagem, às 9h25 daquela data, tem como título ‘Policiais são presos por suspeita de envolvimento em chacina na Paraíba’. Seu conteúdo concentra-se no relato do MPPB sobre a prisão de seis policiais suspeitos de terem executado os jovens e não participado de uma troca de tiros.

    A segunda matéria, publicada às 13h21, traz manifestação do coronel Sérgio Fonseca, comandante-geral da PMPB, sobre as prisões temporárias dos policiais. “Defendo-os até que se prove o contrário”, afirma o oficial, ressaltando a presunção de inocência como direito dos PMs denunciados.

    A UNIÃO

    No dia 19 de agosto, o site do jornal A União publicou, às 8h45, matéria sob o título ‘MPPB e polícias deflagram operação’. Refere-se à Operação Arcus Pontis, conduzida pelo Ministério Público, em parceria com as polícias Civil e Militar, para prender os PMs suspeitos da morte dos cinco jovens.

    O jornal também se baseia em informações divulgadas pelo MPPB, mas não repete o ‘link’ dos mortos com alguma “facção criminosa”. Ao contrário do que ocorre em outros endereços de mídias digitais, nas quais vítimas de letalidade policial são vinculadas a gangues sem que ninguém – autoridade ou jornalista – informe o nome da tal quadrilha ou organização.

    POLÊMICA PARAÍBA

    No dia 10 deste mês, o Polêmica Paraíba postou às 6h25 a matéria intitulada ‘Justiça manda soltar policiais militares suspeitos da chacina de jovens no Conde’. Soltura condicionada a medidas cautelares: uso de tornozeleira eletrônica, afastamento de serviço, proibição de contato com familiares das vítimas e testemunhas, recolhimento domiciliar no período noturno, comparecimento mensal em juízo e restrições de deslocamento.

    Polêmica informa ainda que um sexto policial, que estava fora do país, teve sua prisão temporária convertida em prisão preventiva, por não colaborar e não se apresentar no prazo determinado (não diz qual). O portal não fez apuração, apenas reproduziu o que divulgou o MPPB. E ainda aplica no seu texto, automaticamente, o carimbo de “grupo criminoso” que a PM pôs nos jovens mortos.

    PARAÍBA ONLINE

    ‘João Azevêdo pede cautela nas investigações contra os policiais militares envolvidos na chacina do Conde’ é a ‘manchete’ do Paraíba Online postada às 16h43 do dia 19 de agosto. A julgar por esse título, o portal considera que os jovens foram executados e não baleados em um tiroteio, ou seja, alinha-se a quem considera chacina o que houve na Ponte dos Arcos em 15 de fevereiro deste ano.

    Por sua vez, ainda segundo o Paraíba Online, apesar de ter pedido “a maior cautela no desenrolar das investigações”, o governador do Estado refere-se aos mortos como marginais. “Não se pode transformar, de repente, pessoas que, em função de uma operação, querer transformar essas pessoas em vítimas, quando na verdade não são”, ressalta João Azevêdo, arrematando:

    – Na verdade, eram marginais que saíram com a missão de executar pessoas e se depararam com a Polícia.

    EM RESUMO

    Desde o anúncio das mortes dos cinco jovens na Ponte do Arcos, autoridades do Estado sustentam que houve confronto e legítima defesa. O Ministério Público da Paraíba viu indícios de chacina, contudo. Indícios documentados em laudo de perícia criminal, divulgado quase dois meses e meio após a pretensa execução ou o elegado tiroreio.

    A imprensa vem publicando os dois entendimentos sem contestar nem investigar se um ou outro procede. É o que revela o monitoramento do noticiário iniciado semana passada pelo Alumia. Que ainda não encontrou vestígios de um mínimo esforço investigativo próprio em sites, portais e emissoras de rádio e tevê monitorados até aqui.

    Uma apuração autônoma de mídia serviria, quando menos, para confirmar ou desmentir o que dizem o advogado Luiz Pereira, contratado pelos PMs denunciados, e dirigentes de órgãos que também defendem os denunciados, a exemplo do governador, do secretário Jean Nunes (Segurança Pública) e do comandante-geral da Polícia Militar do Estado.

    Uma revelação jornalística sobre o que realmente houve naquele 15 de fevereiro de 2025 serviria ainda para confirmar ou desmentir o que dizem peritos criminais e o Ministério Público da Paraíba, que, como já exemplificado e demonstrado, encontraram evidências de um massacre e não de confronto entre PMs e os jovens mortos.

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    Apuração e texto: Anna Athayde

  • Sem imprensa apurar nem questionar, Polícia impõe sua versão às notícias de crime

    Sem imprensa apurar nem questionar, Polícia impõe sua versão às notícias de crime

    Quando “tá lá o corpo estendido, no chão” e a Polícia chega, antes ou pouco depois de repórteres de rádio e televisão… Se o morto é jovem e pobre, foi “crivado de balas” em algum beco ou rua pobre onde mora gente pobre, autoridades presentes à cena do crime costumam antecipar às reportagens a suposta causa da morte. Na Paraíba é muito assim…

    Antes mesmo de qualquer apuração, ainda bem longe da abertura de inquérito ou início de investigação formal, ainda que apenas formal, delegado, policial civil ou PM, se entrevistado ao vivo não se inibe em concluir que a vítima morreu por “envolvimento com drogas”, “ligações com o tráfico” ou qualquer outro suposto vínculo nessa linha.

    Essas entrevistas geralmente estreiam em telas e sintonias pela manhã, vão a reprises ao meio-dia e começo de noite. No dia seguinte, novo homicídio deleta o interesse do ocorrido na véspera, mantendo-se, porém, a dinâmica e a agenda de cobertura superficial mesmo em telejornais que tentam fazer um jornalismo dito profissional e ético.

    Como nesse meio sempre é possível piorar o que já é ruim, telejornal ou radiojornal paraibano que se diz jornalístico – ou se esforça para tanto – obriga-se a guerrear por uma audiência onde vez por outra perde para a concorrência que no mesmo horário acolhe e ecoa, com o defunto ainda quente, a versão que põe no finado a culpa pelo próprio fim.

    Da mesma forma, ouvindo ou observando telejornal digno do nome ou policialesco de rádio ou tevê, a maior parte do público não se dói quando vê, ouve ou observa repórter e apresentador silentes e omissos diante de delegado, policial civil ou PM que, ao vivo, a priori acusa qualquer pobre fuzilado em comunidade ‘periférica’ de “envolvimento com drogas”.

    Como se fosse pouco, sem contratar jornalistas para cobrir cidades-polo do interior, a mídia eletrônica paraibana resolveu usar delegados e afins como repórteres. Volta e meia, emissoras de rádio e tevê divulgam na íntegra áudios e vídeos produzidos por autoridades policiais mais afeitas à exposição midiática do quanto são competentes ou valentes contra “bandidos”.

    CHACINA OU LEGÍTIMA DEFESA?

    No dia 15 de fevereiro deste ano, cinco jovens e adultos com idades variando entre 17 e 26 anos foram mortos a tiros por seis policiais militares com os quais teriam se confrontado, após reagirem – também a tiros – a uma abordagem na Ponte dos Arcos, entre o bairro de Gramame (João Pessoa) e Mituaçu (Conde).

    A versão de confronto e não de chacina, difundida pela Polícia Militar, só começou a ser confrontada quase dois meses e meio depois. Não pela imprensa. Em 30 de abril, foi divulgado laudo de perícia nos dois carros em que se conduziam os suspeitos, alvos de mais de 90 tiros disparados de fora para dentro dos veículos, segundo os peritos.

    Entre a origem do caso e o documento pericial divulgado, nenhum portal de notícias, nenhum programa de rádio ou de tevê da Grande João Pessoa levantou, contestou ou procurou desvendar porque os feridos na dito tiroteio chegaram mortos ou quase todos mortos ao Hospital de Traumas da capital, para onde foram levados pela própria equipe PM envolvida no fato.

    Mas esse e outros detalhes causaram estranheza e motivaram investigação do Ministério Público. Além do transporte de cadáveres e moribundos em viaturas policiais para o HT, carros tiroteados teriam sido levados da Ponte dos Arcos para a Central de Polícia da capital antes que a perícia chegasse ao local, onde também não teriam sido encontrados cartuchos vazios de balas disparadas.

    A perícia mostrou que todos os ocupantes dos carros interceptados foram atingidos na cabeça por disparos feitos a curta distância, contrariando o argumento da troca de tiros. “Um modus operandi típico de execução”, destaca o documento pericial.

    Com base nos indícios que vulneram a versão de tiroteio, de reação dos PMs a tiros que teriam sido disparados pelos abordados na Ponte, o MP pediu – e a Justiça atendeu e determinou – a prisão dos policiais. Todavia, autoridades e defensores dos policiais presos persistiram na versão segundo a qual eles apenas reagiram em legítima defesa contra criminosos que naquela data caçavam, para matar, suposto autor de feminicídio ocorrido no Conde.

    No mais, portais noticiosos de Internet, programas policialescos de rádio e tevês que passaram a cobrir freneticamente as mortes da Ponte dos Arcos e seus desdobramentos, sempre baseados nas informações policiais, referiram-se seguidamente a ligações das vítimas com uma “facção criminosa”.

    Nenhuma denominação da tal facção foi informada ao público. Com isso, os meios de comunicação da Paraíba que assim procederam deram formidável ajuda à versão policial que criminaliza e condena por antecipação, ainda sem qualquer apuração, pessoas como as que perderam a vida entre João Pessoa e Conde.

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    Matéria ainda em apuração que pode atualizar informações relacionadas ao caso da Ponte dos Arcos

  • AGU pressiona, mas “odontologia biológica” segue ativa no TikTok

    AGU pressiona, mas “odontologia biológica” segue ativa no TikTok

    Médicos e dentistas têm usado as redes sociais para difundir procedimentos sem respaldo científico sob o rótulo de “odontologia biológica” — uma pseudociência que sustenta a ideia de uma ligação direta entre dentes e órgãos do corpo.

    Nessa lógica, os chamados “dentistas biológicos” convencem pacientes que problemas em determinados órgãos poderiam ser resolvidos por meio de intervenções odontológicas. Entre as alegações sem evidência científica, estão a retirada de restaurações de amálgama sem necessidade clínica, com o argumento de que o mercúrio presente nelas causaria danos à saúde.

    Outro ponto defendido pela “odontologia biológica” é a extração de dentes sadios ou que necessitam apenas de tratamento endodôntico [canal], sob a falsa premissa de que esses dentes poderiam comprometer a saúde integral do indivíduo.

    Esses profissionais também sustentam que dentes submetidos a tratamento de canal liberariam toxinas na corrente sanguínea capazes de provocar doenças graves, como câncer de mama, enfermidades autoimunes, problemas cardíacos e neurodegenerativos, incluindo Parkinson e Alzheimer.

    Alegações falsas, sem respaldo científico

    Em agosto deste ano, a Advocacia-Geral da União (AGU) publicou nota em seu site informando que, após ser notificado, o TikTok havia removido vídeos de médicos e dentistas que promoviam a chamada “odontologia biológica”. No entanto, o Alumia identificou que ainda circulam na plataforma diversos conteúdos defendendo essas teses sem comprovação científica, mesmo após a notificação da AGU.

    Em nota enviada à reportagem, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) reforçou que a “odontologia biológica” não possui comprovação científica. “Os conceitos defendidos pela ‘odontologia biológica’ colocam em risco a saúde bucal da população, enquanto sugerem tratamentos irregulares e ainda criam no imaginário da população ideias equivocadas contra a segurança de diversos protocolos odontológicos tradicional”, diz o órgão.

    “O CFO esclarece que não há na literatura científica estudos clínicos randomizados, com ou sem meta-análises, que comprovem a relação entre os dentes e outros órgãos do corpo humano de forma direta, linear e bidirecional. Cumpre esclarecer que algumas doenças bucais, que apresentam inflamação crônica, podem estar relacionadas com diversas doenças sistêmicas como o diabetes e a endocardite bacteriana. Porém, nesses casos, os quadros clínicos independem de qual dente especificamente foi acometido pela infecção”, alerta o Conselho.

    Teses e práticas da ‘odontologia biológica’

    Entre as práticas defendidas pela chamada “odontologia biológica” está a extração de dentes saudáveis ou que poderiam ser preservados com tratamento de canal, sob a alegação — sem qualquer respaldo científico — de que esses dentes afetariam a saúde integral do paciente. Há registros de pessoas submetidas à remoção de múltiplos dentes sem indicação clínica convencional.

    Outro ponto recorrente no discurso dos “dentistas biológicos” é a rejeição a implantes de titânio. Eles sustentam, mais uma vez sem evidências científicas, que o metal poderia intoxicar o organismo e até interferir em campos eletromagnéticos do corpo. Com esse argumento, pacientes são induzidos a substituir implantes em bom estado por peças de zircônia, de material cerâmico, em procedimentos desnecessários do ponto de vista clínico.

    Vídeos que circulam no TikTok

    A equipe de apuração do Alumia encontrou mais de 10 vídeos no TikTok que seguem promovendo teses sem comprovação científica, mesmo após a notificação da AGU. Somados, os conteúdos já acumulam mais de 2 milhões de visualizações.

    Em um deles, que já ultrapassa 83 mil visualizações, um profissional afirma que obturações de amálgama liberariam gases venenosos de mercúrio. O vídeo ainda sustenta que apenas um “odontólogo biológico” poderia realizar a remoção, alegando que, caso contrário, o metal chegaria ao cérebro e provocaria intoxicação capaz até de impedir a pessoa de andar.

    Em outro vídeo, que já acumula mais de 1,8 milhão de visualizações no TikTok, um profissional alerta sobre supostos riscos na remoção de restaurações de amálgama. “Já vi gente que tirou amálgama e nunca mais andou, nunca mais andou, porque tirou oito amálgamas de uma vez só. Aí tira, vai para o cérebro que engole e não anda mais. Então cuidado”, diz.

    O discurso, sem qualquer respaldo científico, reforça a lógica da chamada “odontologia biológica”, que associa de forma equivocada a presença de amálgamas de mercúrio a quadros graves de intoxicação e doenças neurológicas.

    Além de vídeos sobre procedimentos, há conteúdos que promovem cursos de “odontologia biológica”. Em um deles, o material promete aos interessados: “Odontologia Biológica significa tratar a raiz do problema, não apenas os sintomas. E isso exige uma visão integrada da saúde do paciente”.

    Conforme previsto no artigo 44 do Código de Ética da Odontologia, o cirurgião-dentista não deve “fazer publicidade e propaganda enganosa”, assim como “anunciar ou divulgar títulos, qualificações, especialidades que não possua” e “anunciar ou divulgar técnicas, terapias de tratamento, área da atuação, que não estejam devidamente comprovadas cientificamente”.

    O que mais explica e alerta o Conselho

    O Conselho Federal de Odontologia explicou ainda que todos os cirurgiões-dentistas, devidamente registrados junto ao Sistema Conselhos de Odontologia, estão capacitados para a remoção das restaurações de amálgama, que pode ser realizada a partir de protocolos simples.

    “Desta forma, sempre que houver indicação clínica, a troca dos materiais é completamente segura, tanto para os pacientes, quanto para os cirurgiões-dentistas; sem exigência de paramentação além daquela legalmente exigida para uso rotineiro nos consultórios odontológicos. O material removido deve ser descartado de forma correta pelos cirurgiões-dentistas, pela questão ambiental”, informa.

    Embora hoje existam no mercado materiais estéticos, diz o CFO, a restauração em amálgama ainda continua em uso e tem indicações com ênfase em saúde pública, em função de sua longevidade clínica. A remoção de antigas restaurações deve ser realizada apenas quando houver algum tipo de comprometimento ou quando o paciente desejar realizar a troca por questões estéticas.

    O CFO reforçou ainda que cirurgiões-dentistas não podem ultrapassar os limites de sua área de atuação. Além de configurar infração ética, a prática pode levar a responsabilização civil e criminal se causar danos à saúde dos pacientes. O órgão destacou ainda que a prescrição hormonal e o atendimento a pacientes oncológicos não estão entre as atribuições ou competências da Odontologia.

    “A orientação do CFO à população é que os pacientes sempre procurem por cirurgiões-dentistas que atuem exclusivamente dentro dos parâmetros científicos da Odontologia e que ofereçam apenas os serviços das especialidades devidamente regulamentadas. É de fundamental importância que os pacientes recusem atendimentos dentro dos conceitos da ‘odontologia biológica’ para que lhes seja garantida segurança nos tratamentos odontológicos”, orienta.
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    Apuração: Anna Athayde, Ana Sarah Cordeiro, Deborah Nascimento e Lívia Trajano

    Supervisão e Texto: Ítalo Rômany

  • Alumia tem reconhecimento nacional por seu trabalho de combate à desinformação

    Alumia tem reconhecimento nacional por seu trabalho de combate à desinformação

    O Alumia, Laboratório de Combate à Desinformação, recebeu Moção de Aplauso do 5º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação (5ENDC), realizado em Fortaleza, de 8 a 10 deste mês, na sede do Sindicato dos Bancários do Ceará.

    A Moção de Aplauso foi aprovada na plenária final do evento, durante o qual a representação do laboratório expôs a missão, objetivos, pesquisas e produção de conteúdos do projeto desenvolvido na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

    A apresentação do Alumia – por Sandra Moura, Sônia Lima e Caren Braga – fez parte da mesa redonda sobre ‘Educação voltada para militantes midiáticos’, na qual o cineasta Max Alvim atuou como debatedor.

    Sandra, professora doutora titular da UFPB, é a coordenadora de Jornalismo do laboratório. Sônia compõe a bancada de jornalistas e Caren, a equipe de apuração.

    Além do combate à desinformação para além da checagem, elas expuseram ações de educação midiática e pautas em andamento com foco nos direitos humanos.

    Segundo Sandra Moura, a Moção de Aplauso, aprovada na 26ª Plenária do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), “premia a dedicação da equipe e aceitação do projeto pela sociedade civil”.

    Criado em 2024, no Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA), da UFPB, o Alumia tem parcerias com a AletheiaFact, Associação de Mídias Digitais da Paraíba (Amidi/PB), Associação Paraibana de Imprensa (API) e Inovatec.

    O laboratório integra ainda o conjunto de entidades fundadoras da Rede Paraibana de Combate à Desinformação (RPCD).

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    Texto: Caren Braga

  • Golpistas atacam quem recorre à Defensoria Pública na Paraíba

    Golpistas atacam quem recorre à Defensoria Pública na Paraíba

    Era uma quinta-feira, 29 de maio de 2025, quando a irmã de Antônia de Souza Bezerra, de 46 anos, recebeu uma mensagem informando que a família havia obtido um resultado favorável em um processo de guarda unilateral. A ação na justiça realmente existia, a identificação batia com a dos envolvidos no processo e as informações da ação estavam corretas.

    A mensagem dizia: “Tenho o prazer de informar que obtivemos um resultado favorável em seu processo. Com a causa sendo julgada procedente, o valor referente à decisão já está disponível para liberação”. Porém, uma única coisa não estava certa: a mensagem teria sido enviada pela Defensoria Pública do Estado da Paraíba (DPE-PB). A instituição oferta serviços jurídicos gratuitos para quem não consegue arcar com os custos de um processo judicial.

    A irmã, que estava em Patos, no Sertão da Paraíba, ligou para Antônia, que reside em Campina Grande, Agreste paraibano. Ela informou à irmã sobre as mensagens e que precisava do dinheiro emprestado para pagar os custos do processo. O valor cobrado era de R$ 346,77 e que precisaria ser pago naquele momento, caso contrário, segundo as mensagens, o juiz arquivaria o caso.

    No mesmo tempo em que entraram em contato com a irmã de Antônia, quem também recebeu as mesmas mensagens foi o cunhado. “Aí, depois eles ligaram para mim, ou seja, eles ligaram para a minha irmã, para o meu cunhado e depois para mim. Só que quando eles ligaram para mim, a minha irmã já tinha me dito e eu falei pra não pagar nada”.

    ERA GOLPE!

    Em Campina Grande, Antônia trabalha como cuidadora para a mãe de uma servidora da Defensoria Pública e aproveitou a desconfiança para ligar para essa conhecida que poderia lhe ajudar.

    “Então, ela me orientou a não pagar, porque era provavelmente golpe, que Defensoria não cobra nada de ninguém e me orientou para que eu continuasse uma conversa, para que eles não desconfiassem, para eles me darem algum dado de conta, para que fosse gerado comprovante para a gente poder ter provas e fazer boletim de ocorrência, e assim foi feito”, relatou.

    “Quando eles mandaram esse valor pra minha irmã e pra mim, eles não só mandaram o valor, como também mandaram cópia de todos os documentos e inclusive a cópia do próprio processo que deveria correr em segredo de justiça, eles tiveram acesso e mandaram o PDF na íntegra pra mim, pra minha irmã”, detalhou a cuidadora. Apesar de todas aquelas informações, tudo não se passava de um golpe.

    BUSCA POR PROVAS

    O plano dos criminosos era bem arquitetado e a busca por provas também precisaria ser. Nesse momento, foi a própria Antônia que entrou em contato com os golpistas. Ela se identificou, disse que estava em busca dos R$ 346,77 e em pouco tempo mandaria a quantia.

    Ela recebeu, então, uma chave Pix CNPJ no nome de Gabriella Oliveira dos Reis. A todo momento, os golpistas, apressados, pediam que a mulher agisse o mais rápido possível alegando que em questões de horas o juiz iria arquivar o processo. Entre as mensagens, Antônia recebeu 17 ligações depois que disse que tentaria conseguir o dinheiro.

    No print abaixo, registro das ligações e apelos ansiosos dos golpistas.

    Ela alegou que não estava conseguindo realizar o pagamento, que aquela chave estava dando erro. Então, outra chave foi enviada, também CNPJ. Essa, no nome de Felipe Pereira Machado. Os golpistas, ansiosos, insistiam:

    – Me manda o comprovante, viu? (…) Não consigo aguardar mais (…) Já devia ter enviado ao promotor de manhã (…) Me responde!

    Antônia realizou duas transferências Pix, uma no valor de R$ 0,50 centavos para a conta de Felipe Pereira e de R$ 1,00 para a de Gabriella Oliveira. “Foi essa, por fim, a fortuna que eles ganharam de nós”, brincou Antônia, depois de conseguir dados para registrar um boletim de ocorrência policial.

    Depois disso, ainda no mesmo dia, 29 de maio, outro golpista, esse com DDD 11 e identificado como João, entrou em contato com Antônia dizendo que, agora, ela estaria falando com um promotor do Ministério Público Estadual. Às 13h25 da tarde.

    O desconhecido fez duas ligações, que não foram atendidas. A cuidadora bloqueou os dois números quando, já no dia 30, chegou a receber ligações dos criminosos às 2h26 da madrugada.

    O QUE DIZ A DEFENSORIA

    O primeiro caso de golpe em que a vítima chegou a pagar a quantia cobrada pelos golpistas é de 29 de maio passado, mesma data em que entraram em contato com a família de Antônia.

    De acordo com a Corregedoria-Geral da Defensoria Pública da Paraíba (DPE-PB), entre essa data e o mês de agosto último foram registrados 48 casos de golpes concretizados em todo o estado.

    Coriolano Sá, corregedor-geral da DPE, explicou que os golpistas têm acesso a informações de processos acompanhados pela instituição; a partir daí, passam a telefonar como defensores públicos, analistas, promotores ou até juízes.

    Em contato com pessoas que usam os serviços da Defensoria, os criminosos exigem o pagamento de supostas custas processuais. “Nas mensagens, eles chegam a cobrar entre R$ 200,00 e R$ 400,00, alegando que esses valores seriam para custas processuais e que, se o assistido não pagar, o processo será arquivado”, explica Coriolano.

    ALVOS PREFERIDOS

    Conforme a Defensoria, os casos preferidos dos golpistas são processos na área da saúde, com cobranças de supostas taxas para a liberação de valores destinados à compra de medicamentos ou realização de procedimentos médicos.

    No dia 8 de julho deste ano, a Assessoria de Comunicação da instituição publicou matéria reforçando o alerta à população com o seguinte título: Defensoria Pública reforça alerta à população sobre golpes envolvendo ações de saúde.

    “Primeiro, eles mandam uma mensagem dizendo ser da Defensoria Pública, informando que nosso assistido ganhou ação e que precisa dos dados bancários para fazer o depósito daquela quantia requerida para a compra do medicamento ou do procedimento. Depois, eles pedem um pix, dizendo que essa quantia é para a liberação daquele dinheiro”, afirma Remédios Mendes, coordenadora do Núcleo Especial de Saúde (NES) da DPE, na matéria publicada.

    Na tentativa de dar credibilidade à fraude, os golpistas chegam a usar como foto de perfil de contatos de Whatsapp o logotipo, nome e identidade visual da DPE-PB.

    COMO DENUNCIAR

    Alertas divulgados no site da instituição reforçam que a Defensoria não realiza nenhum tipo de cobrança pelos serviços prestados. A página também disponibiliza orientações sobre como proceder em caso de golpe.

    A recomendação é que nenhum pagamento seja efetuado e que a denúncia seja feita à Ouvidoria da DPE-PB, pelo número (83) 98647-7712.

    Na foto acima, o alerta no site da Defensoria Pública, que não cobra por serviços que presta a pessoas que os operadores do Direito classificam como hipossuficientes.

    Em outros casos, se necessário, o cidadão pode ainda procurar o núcleo da Defensoria onde foi atendido ou registrar a ocorrência na Delegacia de Defraudações da comarca correspondente.

    Em João Pessoa, a Sede da Defensoria fica na Rua Monsenhor Walfredo Leal, 487, no bairro de Tambiá.

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    Apuração e texto: Caren Braga, Deborah Nascimento e Felipe Bezerra