O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em 2023 que mais de 84 por cento das crianças e adolescentes de 10 a 13 anos de idade utilizaram a Internet no Brasil naquele ano.
O Google revelou, também ano retrasado, que a partir de quando as crianças completam 10 anos pelo menos 17% dos pais que exercem algum controle de acesso afrouxam a vigilância digital sobre filhos menores.
Esses dados reforçam a necessidade de medidas urgentes por uma navegação segura e saudável de crianças e adolescentes na rede mundial de computadores. Especialmente para meninos e meninas que buscam mais intensamente – cada vez mais livremente – virais potencialmente danosos.
Recentemente, o tema ganhou ainda mais atenção com o caso do influenciador Hytalo Santos, envolvido em denúncias que reacenderam o debate sobre a “adultização” das crianças — um fenômeno que diz respeito à exposição precoce ao universo adulto e às consequências desse contato prematuro com conteúdos inadequados.
Para entender como essa realidade impacta o dia a dia das famílias, o Alumia apurou como pais e responsáveis têm enfrentado essa questão. Para tanto, cada membro da equipe de apuração entrevistou três famílias de perfis socioeconômicos distintos, preservando suas identidades por meio de nomes fictícios.
As entrevistas revelaram diversidade nas formas de lidar com o uso da tecnologia e o acesso a conteúdos impróprios, além de apontar diferentes níveis de conhecimento e acesso a ferramentas de controle parental.
As experiências dessas famílias expuseram também, em muitos casos, despreparo de pais para proteger filhos na era digital, cenário que demanda leis e políticas públicas eficazes de combate aos crimes praticados contra crianças e adolescentes no ambiente virtual.
Realidade simples, desafios gigantes
Maria, de 32 anos, mora em Santa Rita, na Paraíba, com seus dois filhos: João Pedro, de 8 anos, e Ana Luzia, de 6. Separada, cria os filhos sozinha e trabalha como atendente numa lanchonete. Com uma renda que mal chega a um salário mínimo, ela conta com a ajuda eventual do pai das crianças.
“Aqui em casa só tem meu celular. Eles usam às vezes para jogar ou ver vídeos no YouTube Kids. Tento ficar de olho sempre, mas é difícil quando chego cansada do trabalho”, relata. Apesar de saber da existência de aplicativos que controlam o acesso a conteúdos inadequados, Maria admite que não conseguiria utilizá-los.
“Me interesso em aprender, mas não sei nem por onde começar”, declarou, demonstrando preocupação com conteúdos adultos na Internet. “Já cliquei num link sem querer e apareceu coisa que nem era pra estar ali. Fico com medo que isso chegue até eles”, relatou.
Sobre nova lei em vias de ser aprovada no Congresso Nacional para combater crimes digitais contra crianças e adolescentes, Maria não tinha conhecimento, mas se mostra esperançosa: “Se tiver uma lei que ajude a proteger mais, eu apoio demais”.
Pais jovens, pouco acesso à informação
Na cidade do Conde, também na Paraíba, uma jovem mãe de 23 anos divide a responsabilidade da criação de dois filhos (5 e 2 anos) com o pai das crianças, de 26 anos. Ambos vivem em cidades diferentes e, juntos, sustentam os filhos com uma renda familiar de até três salários mínimos.
As crianças estudam em escola particular e têm acesso a um tablet. No entanto, os pais não conhecem ferramentas de controle de conteúdo digital. “A gente nunca usou aplicativos pra bloquear nada. Eles só veem vídeos ou jogam, mas não sabemos como impedir que acessem algo perigoso”, admite a mãe.
Questionada se já ouvira falar sobre conteúdos ameaçadores, mencionou o Discord como exemplo de ambiente virtual utilizado por cibercriminosos que têm crianças como alvo. Diz ter visto uma reportagem sobre a plataforma, anos atrás. Quando perguntada sobre o polêmico caso Felca x Hytalo, respondeu:
– Felca fez um vídeo falando que o Hytalo tava sexualizando crianças nas redes. A coisa repercutiu tanto que o Hytalo acabou sendo preso por exploração sexual infantil e até tráfico de pessoas.
Supervisão presente e ativa
Já em Tubarão, Santa Catarina, um casal que há um ano migrou da Paraíba para aquele estado tem uma filha de 8 anos que não possui dispositivos próprios, apenas usa eletrônicos dos pais, mas com tempo limitado e supervisão constante.
Com formação superior e renda de 4 a 6 salários mínimos, o casal adota abordagem mais consciente no uso da tecnologia pela menina. “Ela não acessa redes sociais nem jogos online”, garante a mãe, da mesma idade (31 anos) do marido, que também buscas outras maneiras de controle para além das ferramentas disponíveis.
“Acreditamos que não dá pra confiar só em algoritmos, daí ser fundamental uma supervisão ativa”, complementou o pai.
Confiança na filha de 15 anos
Em Tambaú, capital, uma garota de 15 anos, aluna de colégio particular, tem e acessa livremente endereços diversos da Internet no computador e no celular. Ela é filha de um mãe de 45 anos, com formação superior, e de um pai de 50 anos, morador do Jardim Luna, outro bairro de João Pessoa.
Com renda em torno dos R$ 15 mil, nessa família o controle do acesso da adolescente a conteúdos impróprios jamais foi exercido. Os pais da menina conhecem, mas nunca utilizaram programas ou aplicativos para tanto. Optaram por confiar no bom senso e responsabilidade da filha.
Em Cabedelo (PB), o Alumia entrevistou casal que tem uma filha de 17 anos e um filho de 25. A mãe, 42 anos, tem curso superior completo; o pai, de 45, doutorado. Família com renda de 15 mil reais por mês.
A adolescente estuda em colégio particular; o rapaz, não estuda nem trabalha, mas tem celular e computador e a jovem, apenas celular. O casal conhece e usou aplicativos de controle parental, como o Family link, quando os filhos eram pequenos.
Sobre consequências e desdobramentos da denúncia do youtuber Felca contra o influenciador paraibano Hytalo, disseram que não tinham conhecimento, mas vão se informar melhor. Principalmente sobre o projeto que, uma vez aprovado pelo Congresso Nacional, pode aumentar a proteção a crianças e adolescentes na Internet.
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Apuração e texto: Gean Santos e Lara Couras
























