Autor: alumia

  • Chacina ou tiroteio? Série de tv desconstrói versão policial sobre morte de cinco jovens

    Chacina ou tiroteio? Série de tv desconstrói versão policial sobre morte de cinco jovens

    Graças ao jornalismo investigativo da TV Cabo Branco exibido em abril deste ano na série ‘Eles tinham envolvimento…’, um laudo da perícia criminal do Estado, divulgado no dia 30 daquele mês, mostrou que podem ter sido vítimas de chacina – e não de um tiroteio com policiais militares – os cinco jovens mortos quase dois meses antes, em 15 de fevereiro, na Ponte dos Arcos (Vale do Gramame), na divisa entre os municípios de João Pessoa e do Conde.

    O documento dos peritos, ao qual a reportagem da emissora teve acesso, abalou a então inabalável versão oficial sobre os fatos. Com investigações ainda em andamento, autoridades como o governador do Estado, o secretário de Segurança e o Comandante-Geral da PM manifestavam-se convencidos de que os policiais envolvidos reagiram em legítima defesa em um confronto com quem teria dado o primeiro tiro, disparado de dentro de dois carros onde se conduziam três adolescentes e dois adultos.

    Apresentada pela repórter Ana Beatriz Rocha, da Rede Paraíba de Televisão, a série ‘Eles tinham envolvimento…’ revelou, com base no laudo pericial, que os policiais fizeram nada menos que 74 disparos contra um dos veículos e 18 contra o outro. “Todos os tiros partiram de fora para dentro dos carros, com exceção de apenas um disparo, efetuado de dentro para fora”, registrou o G1 Paraíba no mesmo dia 30 de abril, às 12h34, tendo como fonte o documento da perícia técnica. A matéria publicada pelo portal trouxe a assinatura da mesma jornalista que apresentou a série na tevê.

    Os 90 tiros que atingiram latarias, parabrisas e vítimas não foram contados no local onde teriam sido disparados. Os cartuchos vazios de bala não foram recolhidos pelos peritos, que só puderam ver os veículos tiroteados na ‘Cidade da Polícia’, para onde os carros foram removidos, contrariando normas da própria Polícia que determinam a preservação do que possa ser uma cena de crime. Do mesmo modo, corpos agonizantes ou já sem vida foram indevidamente transportados para o Hospital de Trauma da capital, onde foi constatada que as mortes decorreram de balaços na cabeça, entre outros ferimentos graves provocados por armas de fogo.

    Perderam a vida, durante a abordagem policial, Fábio Pereira da Silva Filho (26 anos), Emerson Almeida de Oliveira (25), Alexandre Bernardo de Brito (17), Cristiano Lucas (16) e Gabriel Cassiano de Sousa (17), este filho de Ana Gabriela, vítima de feminicídio ocorrido na manhã do 15 de fevereiro, no Conde. A morte da mulher foi atribuída a Gilmar Eloy Dionizio, preso dois dias depois. O suspeito seria alvo de uma vingança planejada pelos jovens e homens que se depararam com a blitz dos policiais do 5º Batalhão da PM, ainda segundo o relato policial.

    Durante a investigação, seis policiais prestaram depoimento. Um deles confirmou que todos os agentes atiraram, mas não soube dizer quantos disparos efetuou. Já uma familiar de uma das vítimas relatou à Polícia Civil que uma testemunha ocular viu um policial com o pé sobre o pescoço de Cristiano Lucas, que estava com o rosto no chão, fora do veículo (detalhe em página reproduzida abaixo). Constatações de peritos e informações colhidas em depoimentos de testemunhas e familiares dos mortos à Polícia Civil levaram o Ministério Público da Paraíba a pedir a prisão dos seis PMs envolvidos.

    Cinco deles foram presos em João Pessoa no dia 19 de agosto: soldado Mikhaelson Shankley Ferreira Maciel, sargento Marcos Alberto de Sá Monteiro, sargento Wellyson Luiz de Paula, sargento Kobosque Imperiano Pontes e o cabo Edvaldo Monteval Alves Marques. Um sexto membro da equipe da PM, o tenente Alex William de Lira Oliveira, teve sua prisão temporária convertida em preventiva porque teria fugido para os Estados Unidos.

    Menos de três semanas depois do recolhimento dos cinco PMs ao xadrez do 1º Batalhão da corporação, em João Pessoa, o advogado Luiz Pereira, defensor dos acusados, conseguiu da Justiça uma ordem de soltura. Mas os presos se recusaram a deixar a cadeia usando tornozeleira. Também se negaram a ajudar a reconstituir o que ocorreu na noite de 15 de fevereiro, um sábado. No dia 17 deste mês, a Justiça resolveu liberá-los, desobrigando-os do monitoramento e da volta à Ponte dos Arcos.

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    Apuração e texto: Gean Santos

  • Jornalismo declaratório domina o noticiário sobre a morte de seis jovens por PMs no Conde

    Jornalismo declaratório domina o noticiário sobre a morte de seis jovens por PMs no Conde

    A cobertura jornalística sobre a morte de cinco jovens em 15 de fevereiro deste ano, entre João Pessoa e Conde, expôs fragilidades na checagem de informações e reforçou o padrão de jornalismo declaratório no noticiário sobre o caso produzido por veículos de comunicação da Paraíba.

    Por jornalismo declaratório entenda-se aquele que resulta em notícia sem apuração alguma de quem a publica. Baseia-se tão somente no que afirmam as fontes. No caso da suposta Chacina do Conde, esse tipo de ‘jornalismo’ marca a quase totalidade do que foi publicado até aqui pela imprensa paraibana.

    Para chegar à constatação de que declarações de autoridades do Estado prevaleceram sobre informações que poderiam ser levantadas em investigação jornalística, o Alumia selecionou e avaliou matérias publicadas em diversos sites informativos que noticiaram a suposta chacina e seus desdobramentos.

    Neste segundo capítulo da série sobre erros e omissões de imprensa na cobertura de fatos violentos ou impactantes, foram selecionadas e analisadas matérias dos portais Polêmica Paraíba, Paraíba Online, do jornal A União e do site de Maurílio Júnior. Acompanhe os destaques, segundo o material coletado.

    MAURÍLIO JÚNIOR

    No dia 18 de agosto último, Maurílio Júnior publicou duas matérias sobre as mortes dos cinco jovens na Ponte dos Arcos. Ambas as publicações reproduzem informações e declarações oficiais. Uma do Ministério Público da Paraíba (MPPB); outra, do Comandante-Geral da Polícia Militar do Estado.

    A primeira postagem, às 9h25 daquela data, tem como título ‘Policiais são presos por suspeita de envolvimento em chacina na Paraíba’. Seu conteúdo concentra-se no relato do MPPB sobre a prisão de seis policiais suspeitos de terem executado os jovens e não participado de uma troca de tiros.

    A segunda matéria, publicada às 13h21, traz manifestação do coronel Sérgio Fonseca, comandante-geral da PMPB, sobre as prisões temporárias dos policiais. “Defendo-os até que se prove o contrário”, afirma o oficial, ressaltando a presunção de inocência como direito dos PMs denunciados.

    A UNIÃO

    No dia 19 de agosto, o site do jornal A União publicou, às 8h45, matéria sob o título ‘MPPB e polícias deflagram operação’. Refere-se à Operação Arcus Pontis, conduzida pelo Ministério Público, em parceria com as polícias Civil e Militar, para prender os PMs suspeitos da morte dos cinco jovens.

    O jornal também se baseia em informações divulgadas pelo MPPB, mas não repete o ‘link’ dos mortos com alguma “facção criminosa”. Ao contrário do que ocorre em outros endereços de mídias digitais, nas quais vítimas de letalidade policial são vinculadas a gangues sem que ninguém – autoridade ou jornalista – informe o nome da tal quadrilha ou organização.

    POLÊMICA PARAÍBA

    No dia 10 deste mês, o Polêmica Paraíba postou às 6h25 a matéria intitulada ‘Justiça manda soltar policiais militares suspeitos da chacina de jovens no Conde’. Soltura condicionada a medidas cautelares: uso de tornozeleira eletrônica, afastamento de serviço, proibição de contato com familiares das vítimas e testemunhas, recolhimento domiciliar no período noturno, comparecimento mensal em juízo e restrições de deslocamento.

    Polêmica informa ainda que um sexto policial, que estava fora do país, teve sua prisão temporária convertida em prisão preventiva, por não colaborar e não se apresentar no prazo determinado (não diz qual). O portal não fez apuração, apenas reproduziu o que divulgou o MPPB. E ainda aplica no seu texto, automaticamente, o carimbo de “grupo criminoso” que a PM pôs nos jovens mortos.

    PARAÍBA ONLINE

    ‘João Azevêdo pede cautela nas investigações contra os policiais militares envolvidos na chacina do Conde’ é a ‘manchete’ do Paraíba Online postada às 16h43 do dia 19 de agosto. A julgar por esse título, o portal considera que os jovens foram executados e não baleados em um tiroteio, ou seja, alinha-se a quem considera chacina o que houve na Ponte dos Arcos em 15 de fevereiro deste ano.

    Por sua vez, ainda segundo o Paraíba Online, apesar de ter pedido “a maior cautela no desenrolar das investigações”, o governador do Estado refere-se aos mortos como marginais. “Não se pode transformar, de repente, pessoas que, em função de uma operação, querer transformar essas pessoas em vítimas, quando na verdade não são”, ressalta João Azevêdo, arrematando:

    – Na verdade, eram marginais que saíram com a missão de executar pessoas e se depararam com a Polícia.

    EM RESUMO

    Desde o anúncio das mortes dos cinco jovens na Ponte do Arcos, autoridades do Estado sustentam que houve confronto e legítima defesa. O Ministério Público da Paraíba viu indícios de chacina, contudo. Indícios documentados em laudo de perícia criminal, divulgado quase dois meses e meio após a pretensa execução ou o elegado tiroreio.

    A imprensa vem publicando os dois entendimentos sem contestar nem investigar se um ou outro procede. É o que revela o monitoramento do noticiário iniciado semana passada pelo Alumia. Que ainda não encontrou vestígios de um mínimo esforço investigativo próprio em sites, portais e emissoras de rádio e tevê monitorados até aqui.

    Uma apuração autônoma de mídia serviria, quando menos, para confirmar ou desmentir o que dizem o advogado Luiz Pereira, contratado pelos PMs denunciados, e dirigentes de órgãos que também defendem os denunciados, a exemplo do governador, do secretário Jean Nunes (Segurança Pública) e do comandante-geral da Polícia Militar do Estado.

    Uma revelação jornalística sobre o que realmente houve naquele 15 de fevereiro de 2025 serviria ainda para confirmar ou desmentir o que dizem peritos criminais e o Ministério Público da Paraíba, que, como já exemplificado e demonstrado, encontraram evidências de um massacre e não de confronto entre PMs e os jovens mortos.

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    Apuração e texto: Anna Athayde

  • Sem imprensa apurar nem questionar, Polícia impõe sua versão às notícias de crime

    Sem imprensa apurar nem questionar, Polícia impõe sua versão às notícias de crime

    Quando “tá lá o corpo estendido, no chão” e a Polícia chega, antes ou pouco depois de repórteres de rádio e televisão… Se o morto é jovem e pobre, foi “crivado de balas” em algum beco ou rua pobre onde mora gente pobre, autoridades presentes à cena do crime costumam antecipar às reportagens a suposta causa da morte. Na Paraíba é muito assim…

    Antes mesmo de qualquer apuração, ainda bem longe da abertura de inquérito ou início de investigação formal, ainda que apenas formal, delegado, policial civil ou PM, se entrevistado ao vivo não se inibe em concluir que a vítima morreu por “envolvimento com drogas”, “ligações com o tráfico” ou qualquer outro suposto vínculo nessa linha.

    Essas entrevistas geralmente estreiam em telas e sintonias pela manhã, vão a reprises ao meio-dia e começo de noite. No dia seguinte, novo homicídio deleta o interesse do ocorrido na véspera, mantendo-se, porém, a dinâmica e a agenda de cobertura superficial mesmo em telejornais que tentam fazer um jornalismo dito profissional e ético.

    Como nesse meio sempre é possível piorar o que já é ruim, telejornal ou radiojornal paraibano que se diz jornalístico – ou se esforça para tanto – obriga-se a guerrear por uma audiência onde vez por outra perde para a concorrência que no mesmo horário acolhe e ecoa, com o defunto ainda quente, a versão que põe no finado a culpa pelo próprio fim.

    Da mesma forma, ouvindo ou observando telejornal digno do nome ou policialesco de rádio ou tevê, a maior parte do público não se dói quando vê, ouve ou observa repórter e apresentador silentes e omissos diante de delegado, policial civil ou PM que, ao vivo, a priori acusa qualquer pobre fuzilado em comunidade ‘periférica’ de “envolvimento com drogas”.

    Como se fosse pouco, sem contratar jornalistas para cobrir cidades-polo do interior, a mídia eletrônica paraibana resolveu usar delegados e afins como repórteres. Volta e meia, emissoras de rádio e tevê divulgam na íntegra áudios e vídeos produzidos por autoridades policiais mais afeitas à exposição midiática do quanto são competentes ou valentes contra “bandidos”.

    CHACINA OU LEGÍTIMA DEFESA?

    No dia 15 de fevereiro deste ano, cinco jovens e adultos com idades variando entre 17 e 26 anos foram mortos a tiros por seis policiais militares com os quais teriam se confrontado, após reagirem – também a tiros – a uma abordagem na Ponte dos Arcos, entre o bairro de Gramame (João Pessoa) e Mituaçu (Conde).

    A versão de confronto e não de chacina, difundida pela Polícia Militar, só começou a ser confrontada quase dois meses e meio depois. Não pela imprensa. Em 30 de abril, foi divulgado laudo de perícia nos dois carros em que se conduziam os suspeitos, alvos de mais de 90 tiros disparados de fora para dentro dos veículos, segundo os peritos.

    Entre a origem do caso e o documento pericial divulgado, nenhum portal de notícias, nenhum programa de rádio ou de tevê da Grande João Pessoa levantou, contestou ou procurou desvendar porque os feridos na dito tiroteio chegaram mortos ou quase todos mortos ao Hospital de Traumas da capital, para onde foram levados pela própria equipe PM envolvida no fato.

    Mas esse e outros detalhes causaram estranheza e motivaram investigação do Ministério Público. Além do transporte de cadáveres e moribundos em viaturas policiais para o HT, carros tiroteados teriam sido levados da Ponte dos Arcos para a Central de Polícia da capital antes que a perícia chegasse ao local, onde também não teriam sido encontrados cartuchos vazios de balas disparadas.

    A perícia mostrou que todos os ocupantes dos carros interceptados foram atingidos na cabeça por disparos feitos a curta distância, contrariando o argumento da troca de tiros. “Um modus operandi típico de execução”, destaca o documento pericial.

    Com base nos indícios que vulneram a versão de tiroteio, de reação dos PMs a tiros que teriam sido disparados pelos abordados na Ponte, o MP pediu – e a Justiça atendeu e determinou – a prisão dos policiais. Todavia, autoridades e defensores dos policiais presos persistiram na versão segundo a qual eles apenas reagiram em legítima defesa contra criminosos que naquela data caçavam, para matar, suposto autor de feminicídio ocorrido no Conde.

    No mais, portais noticiosos de Internet, programas policialescos de rádio e tevês que passaram a cobrir freneticamente as mortes da Ponte dos Arcos e seus desdobramentos, sempre baseados nas informações policiais, referiram-se seguidamente a ligações das vítimas com uma “facção criminosa”.

    Nenhuma denominação da tal facção foi informada ao público. Com isso, os meios de comunicação da Paraíba que assim procederam deram formidável ajuda à versão policial que criminaliza e condena por antecipação, ainda sem qualquer apuração, pessoas como as que perderam a vida entre João Pessoa e Conde.

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    Matéria ainda em apuração que pode atualizar informações relacionadas ao caso da Ponte dos Arcos

  • AGU pressiona, mas “odontologia biológica” segue ativa no TikTok

    AGU pressiona, mas “odontologia biológica” segue ativa no TikTok

    Médicos e dentistas têm usado as redes sociais para difundir procedimentos sem respaldo científico sob o rótulo de “odontologia biológica” — uma pseudociência que sustenta a ideia de uma ligação direta entre dentes e órgãos do corpo.

    Nessa lógica, os chamados “dentistas biológicos” convencem pacientes que problemas em determinados órgãos poderiam ser resolvidos por meio de intervenções odontológicas. Entre as alegações sem evidência científica, estão a retirada de restaurações de amálgama sem necessidade clínica, com o argumento de que o mercúrio presente nelas causaria danos à saúde.

    Outro ponto defendido pela “odontologia biológica” é a extração de dentes sadios ou que necessitam apenas de tratamento endodôntico [canal], sob a falsa premissa de que esses dentes poderiam comprometer a saúde integral do indivíduo.

    Esses profissionais também sustentam que dentes submetidos a tratamento de canal liberariam toxinas na corrente sanguínea capazes de provocar doenças graves, como câncer de mama, enfermidades autoimunes, problemas cardíacos e neurodegenerativos, incluindo Parkinson e Alzheimer.

    Alegações falsas, sem respaldo científico

    Em agosto deste ano, a Advocacia-Geral da União (AGU) publicou nota em seu site informando que, após ser notificado, o TikTok havia removido vídeos de médicos e dentistas que promoviam a chamada “odontologia biológica”. No entanto, o Alumia identificou que ainda circulam na plataforma diversos conteúdos defendendo essas teses sem comprovação científica, mesmo após a notificação da AGU.

    Em nota enviada à reportagem, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) reforçou que a “odontologia biológica” não possui comprovação científica. “Os conceitos defendidos pela ‘odontologia biológica’ colocam em risco a saúde bucal da população, enquanto sugerem tratamentos irregulares e ainda criam no imaginário da população ideias equivocadas contra a segurança de diversos protocolos odontológicos tradicional”, diz o órgão.

    “O CFO esclarece que não há na literatura científica estudos clínicos randomizados, com ou sem meta-análises, que comprovem a relação entre os dentes e outros órgãos do corpo humano de forma direta, linear e bidirecional. Cumpre esclarecer que algumas doenças bucais, que apresentam inflamação crônica, podem estar relacionadas com diversas doenças sistêmicas como o diabetes e a endocardite bacteriana. Porém, nesses casos, os quadros clínicos independem de qual dente especificamente foi acometido pela infecção”, alerta o Conselho.

    Teses e práticas da ‘odontologia biológica’

    Entre as práticas defendidas pela chamada “odontologia biológica” está a extração de dentes saudáveis ou que poderiam ser preservados com tratamento de canal, sob a alegação — sem qualquer respaldo científico — de que esses dentes afetariam a saúde integral do paciente. Há registros de pessoas submetidas à remoção de múltiplos dentes sem indicação clínica convencional.

    Outro ponto recorrente no discurso dos “dentistas biológicos” é a rejeição a implantes de titânio. Eles sustentam, mais uma vez sem evidências científicas, que o metal poderia intoxicar o organismo e até interferir em campos eletromagnéticos do corpo. Com esse argumento, pacientes são induzidos a substituir implantes em bom estado por peças de zircônia, de material cerâmico, em procedimentos desnecessários do ponto de vista clínico.

    Vídeos que circulam no TikTok

    A equipe de apuração do Alumia encontrou mais de 10 vídeos no TikTok que seguem promovendo teses sem comprovação científica, mesmo após a notificação da AGU. Somados, os conteúdos já acumulam mais de 2 milhões de visualizações.

    Em um deles, que já ultrapassa 83 mil visualizações, um profissional afirma que obturações de amálgama liberariam gases venenosos de mercúrio. O vídeo ainda sustenta que apenas um “odontólogo biológico” poderia realizar a remoção, alegando que, caso contrário, o metal chegaria ao cérebro e provocaria intoxicação capaz até de impedir a pessoa de andar.

    Em outro vídeo, que já acumula mais de 1,8 milhão de visualizações no TikTok, um profissional alerta sobre supostos riscos na remoção de restaurações de amálgama. “Já vi gente que tirou amálgama e nunca mais andou, nunca mais andou, porque tirou oito amálgamas de uma vez só. Aí tira, vai para o cérebro que engole e não anda mais. Então cuidado”, diz.

    O discurso, sem qualquer respaldo científico, reforça a lógica da chamada “odontologia biológica”, que associa de forma equivocada a presença de amálgamas de mercúrio a quadros graves de intoxicação e doenças neurológicas.

    Além de vídeos sobre procedimentos, há conteúdos que promovem cursos de “odontologia biológica”. Em um deles, o material promete aos interessados: “Odontologia Biológica significa tratar a raiz do problema, não apenas os sintomas. E isso exige uma visão integrada da saúde do paciente”.

    Conforme previsto no artigo 44 do Código de Ética da Odontologia, o cirurgião-dentista não deve “fazer publicidade e propaganda enganosa”, assim como “anunciar ou divulgar títulos, qualificações, especialidades que não possua” e “anunciar ou divulgar técnicas, terapias de tratamento, área da atuação, que não estejam devidamente comprovadas cientificamente”.

    O que mais explica e alerta o Conselho

    O Conselho Federal de Odontologia explicou ainda que todos os cirurgiões-dentistas, devidamente registrados junto ao Sistema Conselhos de Odontologia, estão capacitados para a remoção das restaurações de amálgama, que pode ser realizada a partir de protocolos simples.

    “Desta forma, sempre que houver indicação clínica, a troca dos materiais é completamente segura, tanto para os pacientes, quanto para os cirurgiões-dentistas; sem exigência de paramentação além daquela legalmente exigida para uso rotineiro nos consultórios odontológicos. O material removido deve ser descartado de forma correta pelos cirurgiões-dentistas, pela questão ambiental”, informa.

    Embora hoje existam no mercado materiais estéticos, diz o CFO, a restauração em amálgama ainda continua em uso e tem indicações com ênfase em saúde pública, em função de sua longevidade clínica. A remoção de antigas restaurações deve ser realizada apenas quando houver algum tipo de comprometimento ou quando o paciente desejar realizar a troca por questões estéticas.

    O CFO reforçou ainda que cirurgiões-dentistas não podem ultrapassar os limites de sua área de atuação. Além de configurar infração ética, a prática pode levar a responsabilização civil e criminal se causar danos à saúde dos pacientes. O órgão destacou ainda que a prescrição hormonal e o atendimento a pacientes oncológicos não estão entre as atribuições ou competências da Odontologia.

    “A orientação do CFO à população é que os pacientes sempre procurem por cirurgiões-dentistas que atuem exclusivamente dentro dos parâmetros científicos da Odontologia e que ofereçam apenas os serviços das especialidades devidamente regulamentadas. É de fundamental importância que os pacientes recusem atendimentos dentro dos conceitos da ‘odontologia biológica’ para que lhes seja garantida segurança nos tratamentos odontológicos”, orienta.
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    Apuração: Anna Athayde, Ana Sarah Cordeiro, Deborah Nascimento e Lívia Trajano

    Supervisão e Texto: Ítalo Rômany

  • Alumia tem reconhecimento nacional por seu trabalho de combate à desinformação

    Alumia tem reconhecimento nacional por seu trabalho de combate à desinformação

    O Alumia, Laboratório de Combate à Desinformação, recebeu Moção de Aplauso do 5º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação (5ENDC), realizado em Fortaleza, de 8 a 10 deste mês, na sede do Sindicato dos Bancários do Ceará.

    A Moção de Aplauso foi aprovada na plenária final do evento, durante o qual a representação do laboratório expôs a missão, objetivos, pesquisas e produção de conteúdos do projeto desenvolvido na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

    A apresentação do Alumia – por Sandra Moura, Sônia Lima e Caren Braga – fez parte da mesa redonda sobre ‘Educação voltada para militantes midiáticos’, na qual o cineasta Max Alvim atuou como debatedor.

    Sandra, professora doutora titular da UFPB, é a coordenadora de Jornalismo do laboratório. Sônia compõe a bancada de jornalistas e Caren, a equipe de apuração.

    Além do combate à desinformação para além da checagem, elas expuseram ações de educação midiática e pautas em andamento com foco nos direitos humanos.

    Segundo Sandra Moura, a Moção de Aplauso, aprovada na 26ª Plenária do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), “premia a dedicação da equipe e aceitação do projeto pela sociedade civil”.

    Criado em 2024, no Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA), da UFPB, o Alumia tem parcerias com a AletheiaFact, Associação de Mídias Digitais da Paraíba (Amidi/PB), Associação Paraibana de Imprensa (API) e Inovatec.

    O laboratório integra ainda o conjunto de entidades fundadoras da Rede Paraibana de Combate à Desinformação (RPCD).

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    Texto: Caren Braga

  • Golpistas atacam quem recorre à Defensoria Pública na Paraíba

    Golpistas atacam quem recorre à Defensoria Pública na Paraíba

    Era uma quinta-feira, 29 de maio de 2025, quando a irmã de Antônia de Souza Bezerra, de 46 anos, recebeu uma mensagem informando que a família havia obtido um resultado favorável em um processo de guarda unilateral. A ação na justiça realmente existia, a identificação batia com a dos envolvidos no processo e as informações da ação estavam corretas.

    A mensagem dizia: “Tenho o prazer de informar que obtivemos um resultado favorável em seu processo. Com a causa sendo julgada procedente, o valor referente à decisão já está disponível para liberação”. Porém, uma única coisa não estava certa: a mensagem teria sido enviada pela Defensoria Pública do Estado da Paraíba (DPE-PB). A instituição oferta serviços jurídicos gratuitos para quem não consegue arcar com os custos de um processo judicial.

    A irmã, que estava em Patos, no Sertão da Paraíba, ligou para Antônia, que reside em Campina Grande, Agreste paraibano. Ela informou à irmã sobre as mensagens e que precisava do dinheiro emprestado para pagar os custos do processo. O valor cobrado era de R$ 346,77 e que precisaria ser pago naquele momento, caso contrário, segundo as mensagens, o juiz arquivaria o caso.

    No mesmo tempo em que entraram em contato com a irmã de Antônia, quem também recebeu as mesmas mensagens foi o cunhado. “Aí, depois eles ligaram para mim, ou seja, eles ligaram para a minha irmã, para o meu cunhado e depois para mim. Só que quando eles ligaram para mim, a minha irmã já tinha me dito e eu falei pra não pagar nada”.

    ERA GOLPE!

    Em Campina Grande, Antônia trabalha como cuidadora para a mãe de uma servidora da Defensoria Pública e aproveitou a desconfiança para ligar para essa conhecida que poderia lhe ajudar.

    “Então, ela me orientou a não pagar, porque era provavelmente golpe, que Defensoria não cobra nada de ninguém e me orientou para que eu continuasse uma conversa, para que eles não desconfiassem, para eles me darem algum dado de conta, para que fosse gerado comprovante para a gente poder ter provas e fazer boletim de ocorrência, e assim foi feito”, relatou.

    “Quando eles mandaram esse valor pra minha irmã e pra mim, eles não só mandaram o valor, como também mandaram cópia de todos os documentos e inclusive a cópia do próprio processo que deveria correr em segredo de justiça, eles tiveram acesso e mandaram o PDF na íntegra pra mim, pra minha irmã”, detalhou a cuidadora. Apesar de todas aquelas informações, tudo não se passava de um golpe.

    BUSCA POR PROVAS

    O plano dos criminosos era bem arquitetado e a busca por provas também precisaria ser. Nesse momento, foi a própria Antônia que entrou em contato com os golpistas. Ela se identificou, disse que estava em busca dos R$ 346,77 e em pouco tempo mandaria a quantia.

    Ela recebeu, então, uma chave Pix CNPJ no nome de Gabriella Oliveira dos Reis. A todo momento, os golpistas, apressados, pediam que a mulher agisse o mais rápido possível alegando que em questões de horas o juiz iria arquivar o processo. Entre as mensagens, Antônia recebeu 17 ligações depois que disse que tentaria conseguir o dinheiro.

    No print abaixo, registro das ligações e apelos ansiosos dos golpistas.

    Ela alegou que não estava conseguindo realizar o pagamento, que aquela chave estava dando erro. Então, outra chave foi enviada, também CNPJ. Essa, no nome de Felipe Pereira Machado. Os golpistas, ansiosos, insistiam:

    – Me manda o comprovante, viu? (…) Não consigo aguardar mais (…) Já devia ter enviado ao promotor de manhã (…) Me responde!

    Antônia realizou duas transferências Pix, uma no valor de R$ 0,50 centavos para a conta de Felipe Pereira e de R$ 1,00 para a de Gabriella Oliveira. “Foi essa, por fim, a fortuna que eles ganharam de nós”, brincou Antônia, depois de conseguir dados para registrar um boletim de ocorrência policial.

    Depois disso, ainda no mesmo dia, 29 de maio, outro golpista, esse com DDD 11 e identificado como João, entrou em contato com Antônia dizendo que, agora, ela estaria falando com um promotor do Ministério Público Estadual. Às 13h25 da tarde.

    O desconhecido fez duas ligações, que não foram atendidas. A cuidadora bloqueou os dois números quando, já no dia 30, chegou a receber ligações dos criminosos às 2h26 da madrugada.

    O QUE DIZ A DEFENSORIA

    O primeiro caso de golpe em que a vítima chegou a pagar a quantia cobrada pelos golpistas é de 29 de maio passado, mesma data em que entraram em contato com a família de Antônia.

    De acordo com a Corregedoria-Geral da Defensoria Pública da Paraíba (DPE-PB), entre essa data e o mês de agosto último foram registrados 48 casos de golpes concretizados em todo o estado.

    Coriolano Sá, corregedor-geral da DPE, explicou que os golpistas têm acesso a informações de processos acompanhados pela instituição; a partir daí, passam a telefonar como defensores públicos, analistas, promotores ou até juízes.

    Em contato com pessoas que usam os serviços da Defensoria, os criminosos exigem o pagamento de supostas custas processuais. “Nas mensagens, eles chegam a cobrar entre R$ 200,00 e R$ 400,00, alegando que esses valores seriam para custas processuais e que, se o assistido não pagar, o processo será arquivado”, explica Coriolano.

    ALVOS PREFERIDOS

    Conforme a Defensoria, os casos preferidos dos golpistas são processos na área da saúde, com cobranças de supostas taxas para a liberação de valores destinados à compra de medicamentos ou realização de procedimentos médicos.

    No dia 8 de julho deste ano, a Assessoria de Comunicação da instituição publicou matéria reforçando o alerta à população com o seguinte título: Defensoria Pública reforça alerta à população sobre golpes envolvendo ações de saúde.

    “Primeiro, eles mandam uma mensagem dizendo ser da Defensoria Pública, informando que nosso assistido ganhou ação e que precisa dos dados bancários para fazer o depósito daquela quantia requerida para a compra do medicamento ou do procedimento. Depois, eles pedem um pix, dizendo que essa quantia é para a liberação daquele dinheiro”, afirma Remédios Mendes, coordenadora do Núcleo Especial de Saúde (NES) da DPE, na matéria publicada.

    Na tentativa de dar credibilidade à fraude, os golpistas chegam a usar como foto de perfil de contatos de Whatsapp o logotipo, nome e identidade visual da DPE-PB.

    COMO DENUNCIAR

    Alertas divulgados no site da instituição reforçam que a Defensoria não realiza nenhum tipo de cobrança pelos serviços prestados. A página também disponibiliza orientações sobre como proceder em caso de golpe.

    A recomendação é que nenhum pagamento seja efetuado e que a denúncia seja feita à Ouvidoria da DPE-PB, pelo número (83) 98647-7712.

    Na foto acima, o alerta no site da Defensoria Pública, que não cobra por serviços que presta a pessoas que os operadores do Direito classificam como hipossuficientes.

    Em outros casos, se necessário, o cidadão pode ainda procurar o núcleo da Defensoria onde foi atendido ou registrar a ocorrência na Delegacia de Defraudações da comarca correspondente.

    Em João Pessoa, a Sede da Defensoria fica na Rua Monsenhor Walfredo Leal, 487, no bairro de Tambiá.

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    Apuração e texto: Caren Braga, Deborah Nascimento e Felipe Bezerra

  • Pais afrouxam controle e deixam filho menor vulnerável na Internet

    Pais afrouxam controle e deixam filho menor vulnerável na Internet

    O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em 2023 que mais de 84 por cento das crianças e adolescentes de 10 a 13 anos de idade utilizaram a Internet no Brasil naquele ano.

    O Google revelou, também ano retrasado, que a partir de quando as crianças completam 10 anos pelo menos 17% dos pais que exercem algum controle de acesso afrouxam a vigilância digital sobre filhos menores.

    Esses dados reforçam a necessidade de medidas urgentes por uma navegação segura e saudável de crianças e adolescentes na rede mundial de computadores. Especialmente para meninos e meninas que buscam mais intensamente – cada vez mais livremente – virais potencialmente danosos.

    Recentemente, o tema ganhou ainda mais atenção com o caso do influenciador Hytalo Santos, envolvido em denúncias que reacenderam o debate sobre a “adultização” das crianças — um fenômeno que diz respeito à exposição precoce ao universo adulto e às consequências desse contato prematuro com conteúdos inadequados.

    Para entender como essa realidade impacta o dia a dia das famílias, o Alumia apurou como pais e responsáveis têm enfrentado essa questão. Para tanto, cada membro da equipe de apuração entrevistou três famílias de perfis socioeconômicos distintos, preservando suas identidades por meio de nomes fictícios.

    As entrevistas revelaram diversidade nas formas de lidar com o uso da tecnologia e o acesso a conteúdos impróprios, além de apontar diferentes níveis de conhecimento e acesso a ferramentas de controle parental.

    As experiências dessas famílias expuseram também, em muitos casos, despreparo de pais para proteger filhos na era digital, cenário que demanda leis e políticas públicas eficazes de combate aos crimes praticados contra crianças e adolescentes no ambiente virtual.

    Realidade simples, desafios gigantes

    Maria, de 32 anos, mora em Santa Rita, na Paraíba, com seus dois filhos: João Pedro, de 8 anos, e Ana Luzia, de 6. Separada, cria os filhos sozinha e trabalha como atendente numa lanchonete. Com uma renda que mal chega a um salário mínimo, ela conta com a ajuda eventual do pai das crianças.

    “Aqui em casa só tem meu celular. Eles usam às vezes para jogar ou ver vídeos no YouTube Kids. Tento ficar de olho sempre, mas é difícil quando chego cansada do trabalho”, relata. Apesar de saber da existência de aplicativos que controlam o acesso a conteúdos inadequados, Maria admite que não conseguiria utilizá-los.

    “Me interesso em aprender, mas não sei nem por onde começar”, declarou, demonstrando preocupação com conteúdos adultos na Internet. “Já cliquei num link sem querer e apareceu coisa que nem era pra estar ali. Fico com medo que isso chegue até eles”, relatou.
    Sobre nova lei em vias de ser aprovada no Congresso Nacional para combater crimes digitais contra crianças e adolescentes, Maria não tinha conhecimento, mas se mostra esperançosa: “Se tiver uma lei que ajude a proteger mais, eu apoio demais”.

    Pais jovens, pouco acesso à informação

    Na cidade do Conde, também na Paraíba, uma jovem mãe de 23 anos divide a responsabilidade da criação de dois filhos (5 e 2 anos) com o pai das crianças, de 26 anos. Ambos vivem em cidades diferentes e, juntos, sustentam os filhos com uma renda familiar de até três salários mínimos.

    As crianças estudam em escola particular e têm acesso a um tablet. No entanto, os pais não conhecem ferramentas de controle de conteúdo digital. “A gente nunca usou aplicativos pra bloquear nada. Eles só veem vídeos ou jogam, mas não sabemos como impedir que acessem algo perigoso”, admite a mãe.

    Questionada se já ouvira falar sobre conteúdos ameaçadores, mencionou o Discord como exemplo de ambiente virtual utilizado por cibercriminosos que têm crianças como alvo. Diz ter visto uma reportagem sobre a plataforma, anos atrás. Quando perguntada sobre o polêmico caso Felca x Hytalo, respondeu:

    – Felca fez um vídeo falando que o Hytalo tava sexualizando crianças nas redes. A coisa repercutiu tanto que o Hytalo acabou sendo preso por exploração sexual infantil e até tráfico de pessoas.

    Supervisão presente e ativa

    Já em Tubarão, Santa Catarina, um casal que há um ano migrou da Paraíba para aquele estado tem uma filha de 8 anos que não possui dispositivos próprios, apenas usa eletrônicos dos pais, mas com tempo limitado e supervisão constante.

    Com formação superior e renda de 4 a 6 salários mínimos, o casal adota abordagem mais consciente no uso da tecnologia pela menina. “Ela não acessa redes sociais nem jogos online”, garante a mãe, da mesma idade (31 anos) do marido, que também buscas outras maneiras de controle para além das ferramentas disponíveis.

    “Acreditamos que não dá pra confiar só em algoritmos, daí ser fundamental uma supervisão ativa”, complementou o pai.

    Confiança na filha de 15 anos

    Em Tambaú, capital, uma garota de 15 anos, aluna de colégio particular, tem e acessa livremente endereços diversos da Internet no computador e no celular. Ela é filha de um mãe de 45 anos, com formação superior, e de um pai de 50 anos, morador do Jardim Luna, outro bairro de João Pessoa.

    Com renda em torno dos R$ 15 mil, nessa família o controle do acesso da adolescente a conteúdos impróprios jamais foi exercido. Os pais da menina conhecem, mas nunca utilizaram programas ou aplicativos para tanto. Optaram por confiar no bom senso e responsabilidade da filha.

    Em Cabedelo (PB), o Alumia entrevistou casal que tem uma filha de 17 anos e um filho de 25. A mãe, 42 anos, tem curso superior completo; o pai, de 45, doutorado. Família com renda de 15 mil reais por mês.

    A adolescente estuda em colégio particular; o rapaz, não estuda nem trabalha, mas tem celular e computador e a jovem, apenas celular. O casal conhece e usou aplicativos de controle parental, como o Family link, quando os filhos eram pequenos.

    Sobre consequências e desdobramentos da denúncia do youtuber Felca contra o influenciador paraibano Hytalo, disseram que não tinham conhecimento, mas vão se informar melhor. Principalmente sobre o projeto que, uma vez aprovado pelo Congresso Nacional, pode aumentar a proteção a crianças e adolescentes na Internet.

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    Apuração e texto: Gean Santos e Lara Couras

  • Família de baixa renda não controla acesso de filho menor à Internet

    Família de baixa renda não controla acesso de filho menor à Internet

    A preocupação com o acesso de crianças e adolescentes a conteúdos impróprios na Internet é realidade presente entre famílias residentes na Paraíba. A forma de lidar com a situação varia, contudo.

    Mesmo em família de renda média (acima de sete salários mínimos e abaixo de vinte) e pais com pós-graduação, a vigilância digital é feita de diferentes maneiras. Enquanto uns utilizam ferramentas de controle parental, outros desconhecem completamente a existência de aplicativos com tal finalidade.

    De outro lado, apesar da popularidade do caso Felca versus Hytalo, que trouxe à tona a exploração de crianças no ambiente digital, a maioria dos entrevistados admitiu não ter conhecimento sobre o Projeto de Lei 2628/2022, em vias de ser aprovado no Congresso para, justamente, ampliar o controle dos pais.

    Camila, mãe de um menino de 10 anos, e Patrícia, que tem dois filhos, um de 6 e outro de 10 anos, ambas moradoras de João Pessoa, refletem realidades semelhantes na proteção digital de seus filhos.

    Embora residam em bairros de classe média alta e tenham pais com formação acadêmica de nível superior, o controle parental das duas mulheres não é uniforme. Patrícia utiliza o Google Family. Camila bloqueia e-mail e usa aplicativos para monitorar acesso do filho.

    Por sua vez, Paula, residente no bairro do Aeroclube, na capital, tem renda modesta, mãe com ensino superior incompleto e um filho de quatro anos que, por enquanto, não manuseia qualquer aparelho eletrônico conectado à Internet.

    Paula e o pai da criança admitem que não saberiam como evitar um acesso desprotegido por parte do menino, se o garoto estivesse hoje com mais idade e tentasse entrar em sites como Xvídeo e Privace, que os pais admitem conhecer.

    José, 34 anos, ensino médio completo e renda de um salário mínimo, do interior da Paraíba, tem filho de 13 anos em colégio público. O menino não possui celular, computador ou tablet próprio. Se tivesse, ainda assim esse pai também não saberia o que fazer para controlar o acesso do garoto a conteúdos impróprios para a idade.

    O entrevistado afirmou, todavia, ter visto no noticiário de tevê que a Câmara dos Deputados aprovou lei de combate a crimes em ambientes virtuais (referia-se ao projeto de lei 2628/2022). Já em relação ao caso do influenciador paraibano Hytalo Santos, preso sob acusação de explorar imagens sensuais de crianças e adolescentes, disse ter apenas conhecimento superficial sobre o assunto.

    Um casal com um filho de seis anos e outro com 19, residente em Santa Rita, também foi entrevistado. A mãe, 40 anos; o pai, 48. Ela possui ensino superior completo; ele, ensino médio incompleto. O filho mais novo estuda em colégio particular, o mais velho não estuda. A renda da família é de três salários mínimos. Ambos os filhos possuem acesso a computador e celular desde muito novos.

    O casal de Santa Rita não usa nem sabe de programas que poderiam barrar o acesso do filho mais novo a fotografias e vídeos com imagens não recomendáveis para uma criança. Já ouviu falar ou viu algo sobre abusos na Internet, mas não sabe citar em qual plataforma, site ou perfil.

    Outro casal com dois filhos, um menino de 5 anos e uma menina de 16, mora em Bayeux. A mãe, de 38 anos, e o pai, 36, ambos com ensino médio completo. O garoto e a adolescente estudam em colégio público. A renda da família é de dois salários mínimos. A filha mais velha possui celular e computador próprios; o mais novo, não.

    Os pais não usam nem sabem como fazer para vetar pornografia nas telas domésticas. Ao mesmo tempo, o histórico de navegação de ambos na Internet não despertaria, em tese, a curiosidade dos filhos. O casal não tem conhecimento pessoal de portais ou plataformas de exibição de conteúdo adulto, muito menos de endereços na web com viés de exploração sexual infantil.

    Uma pesquisa da Nielsen encomendada pelo Google em 2023 mostrou que apenas 17 por cento dos pais brasileiros conhecem e utilizam ferramentas adequadas de vigilância digital sobre os filhos menores. A Nielsen é uma empresa germânico-estadunidense de informação e dados.

    O mesmo levantamento apurou algo ainda mais preocupante: a partir dos 10 anos de idade, quando as crianças intensificam presença na Internet, os mesmos pais afrouxam o controle sobre elas.

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    Apuração e texto: Ana Sarah e Gabriel Fernandes

  • Alumia apura se pais controlam acesso de filhos menores a conteúdos adultos na Internet

    Alumia apura se pais controlam acesso de filhos menores a conteúdos adultos na Internet

    O acontecimento recente envolvendo o vídeo viralizado do influenciador Felipe Bressanin, mais conhecido como Felca nas redes sociais, trouxe ao público discussões sobre como proteger crianças e adolescentes de conteúdos impróprios e exploração no ambiente virtual.

    O vídeo em que Felca denuncia outro influenciador, o paraibano Hytalo Santos, despertou o alerta em diversas famílias brasileiras. Para saber como as famílias têm lidado com a situação e as informações que vão surgindo, entramos em contato com pais e mães da Grande João Pessoa.

    Residente no bairro dos Bancários, na capital, com uma filha de 15 anos e um caçula de 10, casal afirma que a tecnologia faz parte do cotidiano de ambos, mas a preocupação maior sempre foi garantir um uso seguro da Internet, desde o início.

    Nessa família, os pais recorreram ao Family Link, aplicativo do Google que permite monitorar e restringir conteúdos inadequados. “A gente conhece e usa os recursos para barrar acesso a conteúdos pornográficos, violentos ou que incentivem automutilação”, garante a mãe.

    Outra mãe, esta ‘solo’, moradora de Jaguaribe, conta que por mais que tenha impedido o acesso de seu filho de 9 anos às redes sociais, a pressão pelo fato de os colegas da escola já terem celulares e tablets fez com que ela cedesse ao desejo do filho, mas com horários limitados e sempre no aparelho dela e da avó do menino.

    A recém descoberta do Family Link pela jovem de 32 anos veio através da mãe de um colega. Segundo ela, a partir do uso da ferramenta disponível na web, o monitoramento na questão dos horários em que o filho poderia ter o acesso ao mundo online ficaram muito melhores.

    Um casal de professores, moradores de Mangabeira, pais de uma pré-adolescente de 12 anos, relata que a maior preocupação é o aliciamento online. O pai, de 43 anos, pontua: “Não é exagero estar sempre atento, a Internet é muito perigosa se a gente não estiver junto”.

    Tanto ele quanto a sua companheira conversam com a filha sobre os riscos do meio digital, mas não deixam de se preocupar e ficar atentos ao cotidiano da garota.

    Todos os entrevistados tinham conhecimento da importância do monitoramento quando se trata de deixar os filhos sozinhos com aparelhos digitais e acreditam que o caso Felca versus Hytalo é algo real e deve ser motivo de muita atenção e preocupação.

    Os acontecimentos recentes mostram como a chamada adultização da infância não é uma realidade distante e todos os adultos deveriam prestar muita atenção no tipo de conteúdo consumido por suas crianças.

    A busca das famílias por equilíbrio, nessa questão, está presente em quase todos os lares das pessoas entrevistadas pelo Alumia, mas os depoimentos colhidos nessa checagem mostram que esse é um chão a ser pisado com bastante cautela. Especialmente quando se tenta monitorar e controlar acessos na Internet de modo a garantir proteção aos filhos.

    Sem esses cuidados e providências, presumível que toda a população infantojuvenil fique exposta e vulnerável a conteúdos danosos ao seu desenvolvimento físico e intelectual.

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    Apuração e texto de abertura: Ana Athayde

  • Falta de acessibilidade é regra em prédios públicos da capital

    Falta de acessibilidade é regra em prédios públicos da capital

    De 18 a 24 deste mês de agosto, o Alumia saiu às ruas da capital para avaliar acessibilidade em órgãos públicos. A falta de piso tátil e de rampas suficientes para toda a extensão das calçadas são problemas comuns a escolas, postos de saúde, mercados, cemitérios e repartições do Poder Judiciário sediadas em João Pessoa.

    Foram visitadas órgãos municipais e estaduais em Tambaú, Altiplano, Manaíra, Jaguaribe, Cristo, Bessa, Colibris e Bairro dos Estados. No Mercado Público de Tambaú (Avenida Ruy Carneiro com a Rua Coração de Jesus, foto abaixo), por exemplo, a acessibilidade é difícil até para pedestres sem mobilidade restrita.


    O prédio tem calçadas estreitas em três níveis de degrau. Cadeirante que se desloca pela Ruy Carneiro só acessa a feira local se usar o piso rebaixado de uma loja vizinha ao mercado. O que vier pela Coração de Jesus vai encontrar uma pequena rampa, mas terá dificuldades para superar os batentes.

    A equipe do Alumia visitou também o Mercado de Artesanato de Tambaú. Piso tátil? Apenas na entrada de agência da Caixa Econômica, no térreo. Rampas? Cinco: três na frente, na Ruy Carneiro, uma na Avenida Navegantes com a Rua Isidro Gomes e outra na Isidro com a Avenida Maria Sales.

    Em Manaíra, a Escola Seráfico da Nóbrega ocupa quase um quarteirão na Avenida Ubirajara Targino Botto com as ruas Lupércio Branco e Coronel Severino Lucena. Tem apenas uma rampa de acesso ao portão de entrada e nenhum piso tátil em todas as calçadas do entorno do educandário.

    No Altiplano, prédios da Justiça são também inacessíveis para quem precisa de acessibilidade. A Corregedoria Geral e a Escola Superior da Magistratura (Esma), na Rua Abelardo da Silva Barreto, compartilham calçadas sem rampa para cadeirante e sem sinalização para pessoa de visão reduzida ou nenhuma.


    Em Jaguaribe, na Rua Engenheiro Leonardo Arcoverde, a Secretaria Municipal de Habitação Social (foto acima) deveria ser, mas não é exemplo de acessibilidade. Não tem piso tátil e dispõe apenas de uma rampa na calçada que compartilha com unidade da Polícia Militar que serve ao Tribunal de Contas do Estado (TCE).

    No Cemitério Público do bairro do Cristo, na esquina das ruas Antônia Gomes da Silveira e Olívia Martins de Almeida Guerra, falta calçada toda pavimentada e sobra lixo, com o reforço de galhos de árvores, alguns com espinhos. Zero acessibilidade tanto para quem passa como para quem entra e não sai mais.

    Ainda no Cristo, a Policlínica Municipal da Rua Olívia Martins de Almeida Guerra tem calçada sem piso tátil e sem rampa. Situação parecida com a da Policlínica Municipal Maria Alice Bezerra Cavalcanti, na Avenida Olinda (Tambaú), onde também não tem piso tátil nem rampa.

    A falta de acessibilidade afeta até mesmo a Secretaria Estadual de Cultura (Secult), na Rua Hilda Coutinho Lucena, em Miramar. Não tem piso tátil, mas tem desnível entre asfalto e calçada. No mesmo bairro, o Posto de Saúde da Família (PSF) na Rua Macrina Barbosa de Abril tem rampa, mas não piso tátil.

    Problema semelhante apresenta a Unidade de Saúde da Família do São José, na Avenida Virgolvino Florentino da Costa (Manaíra), que tem apenas um piso rebaixado na entrada. Já no Bessa, a USF da Rua Napoleão Gomes Varela tem três rampas de acesso (uma delas no estado que mostra a foto abaixo), mas não tem piso tátil. A exceção fica por conta de Colibris, com sua USF dotada de rampa e piso tátil.


    O Alumia encontrou duas escolas municipais acessíveis: a Anita Trigueiro do Valle (Altiplano) e a Nazinha Barbosa (Manaíra, foto abaixo). Ambas contam com rampas e piso tátil em suas calçadas.

    Providência semelhante tomou quem levou para o Bairro dos Estados a Ouvidoria Geral do Estado, localizada na Avenida Maranhão. O órgão possui calçada com a guia rebaixada e tem piso tátil.

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    Apuração: Ana Athayde, Ana Sarah Cordeiro, Caren Braga, Deborah Nascimento, Gabriel Fernandes, Janaína Barbosa, Lara Couras, Maria Rayane e Sônia Lima
    Redação: Sônia Lima e Deborah Nascimento