O programa ‘E se fosse você?’, da Sucesso FM, segue reforçando estereótipos e representações negativas sobre mulheres e pessoas LGBTQIA+. Novo monitoramento do Alumia, entre 28 de julho último e 1º de agosto, identificou uso frequente na emissora de expressões pejorativas como “frutinha”, “frango”, “boiola” e “baitola”, entre outros deboches e ofensas.
No período, casos envolvendo suspeitas de infidelidade, disputas familiares e acusações de comportamentos inadequados foram abordados com pouca ou nenhuma mediação crítica. Comentários do apresentador e ouvintes frequentemente desqualificam mulheres, com julgamento moral e exclusão social.
O ‘E se fosse você?’ da Sucesso FM é transmitido de segunda a sábado, das 9 às 10h. É o carro-chefe da programação de uma das cinco concessões públicas de radiodifusão outorgadas ao Grupo Arapuan de Comunicação. O programa coloca a emissora entre as três mais ouvidas da capital paraibana, segundo pesquisas de audiência divulgadas nos últimos cinco anos.
‘MORANGUINHO’
Paloma, 22 anos, casada e mãe de uma criança de dois anos, procurou o programa no dia 28 de julho para contar o que considera um episódio inusitado envolvendo o marido, Paulinho, vendedor em uma loja de calçados de um grande shopping da capital paraibana.
Segundo Paloma, até então não havia motivos para desconfiar da fidelidade do marido. “Ele sempre foi honesto, comportado e verdadeiro comigo. Nunca fui ciumenta nem de ficar monitorando o celular dele”, contou.
O episódio que levantou suspeitas ocorreu na sexta-feira anterior. Ao chegar em casa, Paloma percebeu que o carro do casal, estacionado na garagem, estava aberto e, dentro dele, havia uma bandeja de morangos. Pela manhã, ela notou que as frutas estavam aparentemente estragadas. Questionado, Paulinho afirmou que os morangos eram para ela. “Mas, se eram para mim, por que não me entregou?”, questionou.
A dúvida aumentou quando Paloma, ao mexer no celular do marido, encontrou mensagens trocadas com um amigo identificado como David. No diálogo, Paulinho dizia que “os primeiros [morangos] eram para ele”. A foto do perfil de David mostrava-o mordendo um morango. “Ele disse que é de boa com todo mundo da loja e que não dá em cima dele, mas fiquei sem acreditar”, afirmou Paloma.
Desde então, o casal não se fala. “Será que meu marido é um ‘moranguinho’ e eu não sabia?”, perguntou, pedindo a opinião de outras mulheres que acompanhavam o programa. Em resposta, ouvintes se referiram a David como “frutinha”, “frango”, “boiola” e “baitola” em tom de deboche e ainda afirmaram que ele estava “comendo o morango e levando outra coisa”. Um outro ouvinte afirmou que o marido de Paloma “é gay” e “gosta de brincar de boneca”. Foram usados ainda outros termos homofóbicos como “picolé de carne”, “viado”, “fanta” e “sukita”.
‘AMIGA’ CALOTEIRA
No programa do dia 29, mulher narra que uma amiga, a quem emprestou cartão de crédito, fez compra não autorizada no valor de R$ 4.500 em benefício de um namorado, que teria se comprometido a quitar a dívida em dez parcelas. Ela costumava emprestar o cartão, mas para compras de no máximo R$ 700.
A suposta pessoa que enviou a pretensa carta ao programa garante que o namorado da amiga não honrou o pagamento da dívida e a amiga está lhe evitando. Teme que seu marido descubra tudo e pede ajuda, pois não sabe o que fazer. Ouvintes aconselharam-na a revelar tudo ao marido. Alguns sugeriram que o casal prejudicado fosse à casa da devedora tomar bens móveis para amenizar o prejuízo.
A mulher que se diz enganada foi tratada como “trouxa” por ter emprestado o cartão. “Vai ouvir bastante do marido, mas deve falar pra ele”, disse uma ouvinte. “Quem empresta, nem pra si presta”, sentenciou outra pessoa que ligou para o programa. Um terceiro recomendou “botar o marido no meio para resolver”.
JANELA INDISCRETA
Alessandro, casado e pai de família, escreveu para o programa em 30 de julho para relatar um dilema: após autorização do vizinho, Seu Carlos, para abrir uma janela voltada ao quintal dele e assim resolver um grave problema de mofo em casa, enfrenta situação delicada. Conta que a esposa do vizinho, sempre que ele aparece na janela, faz gestos e insinuações de cunho sexual.
Quem apresenta o programa fez comentários jocosos, carregados de estereótipos de gênero, como “se a mulher dele (do vizinho) é gostosa…”. Entre os que participaram por telefone, a maioria aconselhou Alessandro a se afastar da janela para evitar problemas no casamento e preservar a amizade com o vizinho. Outros defenderam que ele deveria contar tudo a Seu Carlos, mesmo correndo o risco de conflito.
Houve também comentários mais agressivos, dirigidos tanto a Alessandro quanto à esposa do vizinho. Expressões como “ele está sendo um covarde, safado” e “mulher casada cheira a sangue” marcaram a interação, reforçando o tom ofensivo. O programa tocou músicas como ‘Esperando na janela’ para compor a trilha do caso.
O episódio expôs não apenas o dilema pessoal do ouvinte, mas também a forma como programas populares exploram situações íntimas em tom sensacionalista, reforçando estereótipos sobre mulheres e privilegiando o entretenimento em detrimento do debate crítico.
ASSEDIANDO PROFESSORA
Denise, 27 anos, moradora de João Pessoa, procurou o programa em 31 de julho para contar que vive um impasse no casamento após descobrir o motivo das constantes reclamações do marido, Roberto, sobre a professora do filho. Casados há sete anos, eles têm um menino de cinco anos matriculado em uma escola particular da cidade.
Segundo Denise, era comum ouvir Roberto, responsável por buscar a criança na escola, criticando a professora. As queixas geraram discussões frequentes no casal, até que ele passou a exigir a transferência do filho para outra instituição. Pressionada, Denise chegou a conversar com a direção da escola para viabilizar a mudança.
Ao saber da possível saída do aluno, a professora demonstrou tristeza e indignação, mas não explicou o motivo de imediato. Dias depois, já com a matrícula trancada, enviou uma mensagem à mãe revelando a causa das críticas: Roberto estaria enviando mensagens de cunho sexual pelas redes sociais, em modo de visualização única.
De acordo com Denise, o marido pediu para “deixar a história para lá” quando percebeu que não conseguiria afastar o filho da professora. O caso deixou a mãe dividida entre esclarecer todos os detalhes do episódio ou esquecer o assunto e seguir a vida. Parte dos ouvintes pediu cautela, enquanto outros adotaram tom acusatório e até irônico.
Alguns defenderam que Denise investigue mais antes de agir, sugerindo que procure entender todos os detalhes da história. Outros não pouparam críticas, chamando Roberto de “bandido” e acusando tanto ele quanto a professora de desrespeitar o relacionamento. Houve também quem atribuísse maior responsabilidade à professora.
Entre as manifestações mais duras, uma ouvinte questionou se Denise “tem vocação para corna” e outro participante propôs que ela “desse o troco”, traindo o marido. Vários dos que ligaram disseram acreditar que Roberto e a professora estariam vivendo realmente um relacionamento amoroso.
ASSÉDIO NORMALIZADO
No programa de 1º de agosto, Maiara, 25 anos, mãe de uma menina de três, sofreu assédio do melhor amigo de seu namorado e tem dúvidas se deve contar o ocorrido. Maiara é a vítima, mas percebe-se nas falas dos ouvintes e do apresentador a preocupação com o namorado da vítima e certa condescendência com o assediador.
“Meu namorado se chama Ítalo, um cara que me ajuda muito (…) Eu tenho um emprego razoável e eu nunca pedi ajuda a ninguém, mas Ítalo ajuda porque quer, porque se sente bem me ver feliz e também confortável (…) Ítalo é um cara de muitas amizades, dentre esses amigos existe o Jefferson. Um cara que eu jurava ser o melhor amigo do meu namorado, que sempre falava bem dele. Sempre com muito orgulho e muita empolgação (…) Eu sempre ouvia meu namorado falar que Jefferson emprestava dinheiro”.
Maiara, em momento de dificuldade financeira, resolveu recorrer ao amigo do namorado em busca de um empréstimo, a juros de 30% ao mês. Ao prever o possível atraso do pagamento em alguns dias, Maiara se comunica com Jefferson para lhe dar satisfação e recebe de volta um áudio (de visualização única), com uma proposta sexual em troca do perdão da dívida. Ela disse que sentiu nojo, ódio e tem vontade de contar tudo ao namorado. Mas nada poderia provar por ser o áudio de visualização única.
Ela teme que o namorado não acredite ou se aborreça, porque ela não recorreu a ele para pedir ajuda. “Meu namorado não merece uma amizade dessa! Devo falar pra Ítalo?”, pergunta Maiara à audiência do ‘E se fosse você?’.
Na sequência o apresentador fala: “A mulher não sabe o que tem dentro de um homem, nunca vai saber o que acontece quando ele vira a chave, quando o cara bota a bila de fogo nos olhos. Tu disseste o quê? Tu fizeste o quê?’. Em seguida, ele ironiza a situação ao imaginar como a mulher contaria tudo ao namorado:
– Já pensou se Maiara dissesse “Jefferson queria me ‘torar’ pelo pagamento?” Todo homem tem um comportamento másculo, apesar que tem uns homens hoje em dia que estão com déficit de testosterona.
Ouvintes sugeriram que a mulher não contasse o caso ao namorado. “Deixe essa história para trás e evite colocar o homem em conflito”, recomendou um. Outro reproduziu o que certamente considera um ensinamento: “A mulher sábia edifica o lar, e a tola o destrói”. No geral, os ouvintes, principalmente os homens, aconselham a mulher a deixar a história no passado. Um deles, inclusive, diz que ela deve “apenas tirar uma lição do ocorrido”.
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Apuração: Anna Athayde, Janaína Barbosa, Lívia Trajano, Jean Santos e Sabrina Farias
Supervisão e Redação: Sônia Lima e Ítalo Rômany




















